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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Deus Criador, 1ª parte

"No princípio, Deus criou o céu e a terra" (Gn 1,1).
- Com essas solenes palavras inicia-se a Sagrada Escritura.
- O Símbolo da fé retoma estas palavras confessando Deus Pai Todo-Poderoso como "O Criador do céu e da terra", "de todas as coisas visíveis e invisíveis".
- A criação é o fundamento de "todos os desígnios salvíficos de Deus", "o começo da história da salvação", que culmina em Cristo.
- Inversamente, o mistério de Cristo é a luz decisiva sobre o mistério da criação; ele revela o fim em vista do qual, "no princípio, Deus criou o céu e a terra" (Gn 1,1):
  • desde o início, Deus tinha em vista a glória da nova criação em Cristo.

A catequese sobre a criação
- A catequese sobre a criação se reveste de uma importância capital.
- Ela diz respeito aos próprios fundamentos da vida humana e cristã, pois explicita a resposta da fé cristã a pergunta elementar feita pelos homens de todas as épocas:
  • "De onde viemos?" "Para onde vamos?" "Qual é a nossa origem?" "Qual é o nosso fim?" "De onde vem e para onde vai tudo o que existe?" As duas questões, a da origem e a do fim, são inseparáveis. São decisivas para o sentido e a orientação de nossa vida e de nosso agir.
- A questão das origens do mundo e do homem é objeto de numerosas pesquisas científicas que enriqueceram magnificamente nossos conhecimentos sobre a idade e as dimensões do cosmo, o devir das formas vivas, o aparecimento do homem. Essas descobertas nos convidam a admirar tanto mais a grandeza do Criador, a render-lhe graças por todas as suas obras, pela inteligência e pela sabedoria que dá aos estudiosos e aos pesquisadores. Como Salomão, estes últimos podem dizer:
"Ele me deu um conhecimento infalível dos seres para entender a estrutura do mundo, a atividade dos elementos... pois a Sabedoria, artífice do mundo, mo ensinou" (Sb 7,17.22).
- E, se o mundo provém da sabedoria e da bondade de Deus, por que existe o mal? De onde vem? Quem é o responsável por ele? Haverá como libertar-se dele?
- Desde os inícios, a fé‚ cristã tem-se confrontado com respostas diferentes da sua no que diz respeito a questão das origens. Assim, encontram-se nas religiões e nas culturas antigas numerosos mitos acerca das origens.
- Certos filósofos afirmaram que:
  • tudo‚ é Deus, que o mundo é Deus, ou que o devir do mundo é o devir de Deus (panteísmo);
  • outros afirmaram que o mundo é uma emanação necessária de Deus, emanação esta que deriva dessa fonte e volta a ela; outros ainda afirmaram a existência de dois princípios eternos, o Bem e o Mal, a Luz e as Trevas, em luta permanente entre si (dualismo, maniqueísmo);
  • segundo algumas dessas concepções, o mundo (pelo menos o mundo material) seria mau, produto de uma queda, e portanto deve ser rejeitado ou superado (gnose);
  • outros admitem que o mundo tenha sido feito por Deus, mas à maneira de um relojoeiro que, uma vez terminado o serviço, o teria abandonado a si mesmo (deísmo);
  • outros, finalmente, não aceitam nenhuma origem transcendente do mundo, vendo neste o mero jogo de uma matéria que teria existido sempre (materialismo).
- Todas essas tentativas dão prova da permanência e da universalidade da questão das origens. Esta busca é própria do homem.

- Sem dúvida, a inteligência humana já pode encontrar uma resposta para a questão das origens. Com efeito, a existência de Deus Criador pode ser conhecida com certeza por meio de suas obras, graças à luz da razão humana, ainda que este conhecimento seja muitas vezes obscurecido e desfigurado pelo erro. É por isso que a fé vem confirmar e iluminar a razão na compreensão correta desta verdade:
"Foi pela fé que compreendemos que os mundos foram formados por uma palavra de Deus. Por isso é que o mundo visível não tem sua origem em coisas manifestas" (Hb 11,3).
- A verdade da criação é tão importante para toda a vida humana que Deus, em sua ternura, quis revelar a seu Povo tudo o que é útil conhecer a este respeito. Para além do conhecimento natural que todo homem pode ter do Criador, Deus revelou progressivamente a Israel o mistério da criação.
- Ele, que escolheu os patriarcas, que fez Israel sair do Egito e que, ao escolher Israel, o criou e o formou, se revela como Aquele a quem pertencem todos os povos da terra, e a terra inteira, como o único que "fez o céu e a terra".
- Entre todas as palavras da Sagrada Escritura sobre a criação, os três primeiros capítulos do Gênesis ocupam um lugar único. Do ponto de vista literário, esses textos podem ter diversas fontes. Os autores inspirados puseram-nos no começo da Escritura, de sorte que eles exprimem, em sua linguagem solene, as verdades da criação, da origem e do fim desta em Deus, de sua ordem e de sua bondade, da vocação do homem e finalmente do drama do pecado e da esperança da salvação.
- Lidas à luz de Cristo, na unidade da Sagrada Escritura e na Tradição viva da Igreja, essas palavras são a fonte principal para a catequese dos Mistérios "princípio":
  • criação, queda, promessa da salvação.

II. A criação - obra da Santíssima Trindade
- "No princípio, Deus criou o céu e a terra" (Gn 1,1). Três coisas são afirmadas nestas primeiras palavras da Escritura: o Deus eterno pôs um começo a tudo o que existe fora dele. Só ele é Criador (o verbo "criar" - em hebraico, ''bara'' sempre tem como sujeito Deus). Tudo o que existe (expresso pela fórmula "o céu e a terra") depende daquele que lhe dá o ser.
- "No princípio era o Verbo... e o Verbo era Deus... Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito"(Jo 1,1-3).

- O Novo Testamento revela que Deus criou tudo por meio do Verbo Eterno, seu Filho bem-amado. Nele "foram criadas todas coisas, nos céus e na terra... tudo foi criado por Ele e para Ele é antes de tudo e tudo nele subsiste" (Cl 1,16-17).
- A fé da Igreja afirma outrossim a ação criadora do Espírito Santo:
  • Ele é o "doador de vida" "o Espírito Criador" ("Veni, Creator Spiritus"), a "Fonte de todo bem".
- Insinuada no Antigo Testamento, revelada na Nova Aliança, a ação criadora do Filho e do Espírito, inseparavelmente una com a do Pai, é claramente afirmada pela regra de fé da Igreja:
  • "Só existe um Deus...: ele é o Pai, é Deus, é o Criador, é o Autor, é o Ordenador. Ele fez todas as coisas por si mesmo, isto é, pelo seu Verbo e Sabedoria", "pelo Filho e pelo Espírito", que são como "suas mãos". A criação é a obra comum da Santíssima Trindade.

CIC-Catecismo da Igreja Católica §279-292

Deus Criador, 2ª parte


"O mundo foi criado para a glória de Deus"
- Eis uma verdade fundamental que a Escritura e a Tradição não cessam de ensinar e de celebrar: "O mundo foi criado para a glória de Deus".
- Deus criou todas as coisas, explica São Boaventura, - não para aumentar a [sua] glória, mas para manifestar a glória e para comunicar a sua glória.
- Pois Deus não tem outra razão para criar a não ser seu amor e sua bondade: Aberta a mão pela chave do amor, as criaturas surgiram.
- E o Concílio Vaticano I explica:
Este único e verdadeiro Deus, por sua bondade e por sua "virtude onipotente", não para aumentar sua felicidade nem para adquirir sua perfeição, mas para manifestar essa perfeição por meio dos bens que prodigaliza as criaturas, com vontade plenamente livre, criou simultaneamente no início do tempo ambas as criaturas do nada:
  • a espiritual e a corporal.
- A glória de Deus consiste em que se realize esta manifestação e esta comunicação de sua bondade em vista das quais o mundo foi criado. Fazer de nós "filhos adotivos por Jesus Cristo: conforme o beneplácito de sua vontade para louvor à glória da sua graça" (Ef 1,5-6):
"Pois a glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus: se já a revelação de Deus por meio da criação proporcionou a vida a todos os seres que vivem na terra, quanto mais a manifestação do Pai pelo Verbo proporciona a vida àqueles que vêem a Deus".

O mistério da criação
Deus cria um mundo ordenado e bom
- Já que Deus cria com sabedoria, a criação é ordenada: "Tu dispuseste tudo com medida número e peso" (Sb 11,20). Feita no e por meio do Verbo eterno, "imagem do Deus invisível" (Cl 1,15), a criação está destinada, dirigida ao homem, imagem de Deus, chamado a uma relação pessoal com Ele. Nossa inteligência, que participa da luz do Intelecto divino, pode entender o que Deus nos diz por sua criação, sem dúvida não sem grande esforço e num espírito de humildade e de respeito diante do Criador e de sua obra. Originada da bondade divina, a criação participa desta bondade: "E Deus viu que isto era bom... muito bom" (Gn 1,4.10.12.18.21.31).
- Pois a criação é querida por Deus como um dom dirigido ao homem, como uma herança que lhe é destinada e confiada. Repetidas vezes a Igreja teve de defender a bondade da criação, inclusive do mundo material.
  
Deus transcende a criação e está presente nela
- Deus é infinitamente maior que todas as suas obras: "Sua majestade é mais alta do que os céus" (Sl 8,2), "é incalculável a sua grandeza".
- Mas, por ser o Criador soberano e livre, causa primeira de tudo o que existe, Ele está presente no mais íntimo das suas criaturas:
  • "Nele vivemos, nos movemos e existimos" (At 17,28).
- Segundo as palavras Santo Agostinho, ele é maior do que o que há de maior em mim e íntimo do que o que há de mais íntimo em mim.


CIC-Catecismo da Igreja Católica §293-301

Deus Criador, 3ª parte

Deus realiza o seu projeto: a divina providência
- A criação tem sua bondade e sua perfeição próprias, mas não saiu completamente acabada das mãos do Criador. Ela é criada "em estado de caminhada" para uma perfeição última a ser ainda atingida, para a qual Deus a destinou. Chamamos de divina providência as disposições pelas quais Deus conduz sua criação para esta perfeição:
  • Deus conserva e governa com sua providência tudo o que criou; ela se estende "com vigor de um extremo ao outro e governa o universo com suavidade" (Sb 8,1). Pois "tudo está nu e descoberto aos seus olhos" (Hb 4,13), mesmo os atos dependentes da ação livre das criaturas.
- O testemunho da Escritura é unânime: a solicitude da divina providência é concreta e direta, toma cuidado de tudo, desde as mínimas coisas até os grandes acontecimentos do mundo e da história.
- Com vigor, os livros sagrados afirmam a soberania absoluta de Deus no curso dos acontecimentos:
  • "O nosso Deus está no céu e faz tudo o que deseja" (S1 115,3);
e de Cristo se diz:
  • "O que abre e ninguém mais fecha, e, fechando, ninguém mais abre" (Ap 3,7).
  • "Muitos são os projetos do coração humano, mas é o desígnio do Senhor que permanece firme" (Pr 19,21).
- Assim vemos o Espírito Santo, autor principal da Escritura, atribuir muitas vezes ações a Deus, sem mencionar causas segundas. Esta não é uma "maneira de falar" primitiva, mas uma forma profunda de lembrar o primado de Deus e o seu senhorio absoluto sobre a história e o mundo e de assim educar para a confiança nele. A oração dos Salmos é a grande escola desta confiança.

A providência e as causas segundas
- Deus é o Senhor soberano de seus desígnios. Mas, para a realização dos mesmos, serve-se também do concurso das criaturas. Isso não é um sinal de fraqueza, mas da grandeza e da bondade do Deus Todo-Poderoso. Pois Deus não somente dá as suas criaturas o existir, mas também a dignidade de agirem elas mesmas, de serem causas e princípios umas das outras e de assim cooperarem no cumprimento de seu desígnio.
- Aos homens, Deus concede até de poderem participar livremente de sua providência, confiando-lhes a responsabilidade de "submeter" a terra e de dominá-la.
- Deus concede assim aos homens serem causas inteligentes e livres para completar a obra da Criação, aperfeiçoar sua harmonia para o bem deles e de seus próximos.
- Cooperadores muitas vezes inconscientes da vontade divina, os homens podem entrar deliberadamente no plano divino, por suas ações, por suas orações, mas também por seus sofrimentos. Tornam-se então plenamente "cooperadores de Deus" (1Cor 3,9) e do seu Reino.
- Eis uma verdade inseparável da fé em Deus Criador: Deus age em todo o agir de suas criaturas. E é a causa primeira que opera nas causas segundas e por meio delas: "Pois é Deus quem opera em vós o querer e o operar, segundo a sua vontade" (Fl 2,13).

A providência e o escândalo do mal
- Se Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do mundo ordenado e bom, cuida de todas as suas criaturas, por que então o mal existe? Para esta pergunta tão premente quão inevitável, tão dolorosa quanto misteriosa, não há uma resposta rápida. É o conjunto da fé cristã que constitui a resposta a esta pergunta: a bondade da criação, o drama do pecado, o amor paciente de Deus que se antecipa ao homem por suas Alianças, pela Encarnação redentora de seu Filho, pelo dom do Espírito, pelo congraçamento da Igreja, pela força dos sacramentos, pelo chamado a uma vida bem-aventurada a qual as criaturas livres são convidadas antecipadamente a assentir, mas da qual podem, por um terrível mistério, abrir mão também antecipadamente. Não há nenhum elemento da mensagem cristã que não seja, por uma parte, uma resposta a questão do mal.
- Mas por que Deus não criou um mundo tão perfeito que nele não possa existir mal algum?
- Todavia, em sua sabedoria e bondade infinitas, Deus quis livremente criar um mundo "em estado de caminhada" para sua perfeição última. Este devir permite, no desígnio de Deus, juntamente com o aparecimento de determinados seres, também o desaparecimento de outros, juntamente com o mais perfeito, também o menos imperfeito, juntamente com as construções da natureza, também as destruições. Juntamente com o bem físico existe, portanto, o mal físico, enquanto a criação não houver atingido sua perfeição.
- Os anjos e os homens, criaturas inteligentes e livres, devem caminhar para seu destino último por opção livre e amor preferencial.
- Podem, no entanto, desviar-se. E, de fato, pecaram. Foi assim que o mal moral entrou no mundo, incomensuravelmente mais grave do que o mal físico. Deus não é de modo algum, nem direta nem indiretamente, a causa do mal moral. Todavia, permite-o, respeitando a liberdade de sua criatura e, misteriosamente, sabe auferir dele o bem:
  • Pois o Deus Todo-Poderoso..., por ser soberanamente bom, nunca deixaria qualquer mal existir em suas obras se não fosse bastante poderoso e bom para fazer resultar o bem do próprio ma1.
- Assim, com o passar do tempo, pode-se descobrir que Deus, em sua providência todo-poderosa, pode extrair um bem das conseqüências de um mal, mesmo moral, causado por suas criaturas:
"Não fostes vós, diz José a seus irmãos, que me enviastes para cá, foi Deus; - o mal que tínheis a intenção de fazer-me, o desígnio de Deus o mudou em bem a fim de - salvar a vida de um povo numeroso" (Gn 45,8; 50,20).
- Do maior mal moral jamais cometido, a saber, a rejeição e homicídio do Filho de Deus, causado pelos pecados de todos os homens, Deus, pela superabundância de sua graça, tirou o maior dos bens:
  • a glorificação de Cristo e a nossa Redenção.
Com isso, porém, o mal não se converte em um bem.
- "Sabemos que, para os que amam a Deus, tudo concorre para o bem" (Rm 8,28). O testemunho dos santos não cessa de confirmar esta verdade:
  • "àqueles que se escandalizam e se revoltam com o que lhes acontece": "Tudo procede do amor tudo está ordenado à salvação do homem, Deus não faz nada que não seja para esta finalidade"
  • "Não pode acontecer nada que Deus não tenha querido. Ora, tudo o que ele quer, por pior que possa parecer-nos, é o que há de melhor para nós"
- Cremos firmemente que Deus é o Senhor do mundo e da história. Mas os caminhos de sua providência muitas vezes nos são desconhecidos.
- Só no final, quando acabar o nosso conhecimento parcial, quando virmos Deus "face a face", teremos pleno conhecimento dos caminhos pelos quais, mesmo por meio dos dramas do mal e do pecado, Deus terá conduzido sua criação até o descanso desse Sábado definitivo, em vista do qual criou o céu e a terra.

CIC-Catecismo da Igreja Católica §302-314

domingo, 5 de janeiro de 2014

Deus Todo Poderoso

- De todos os atributos divinos, só a onipotência de Deus é mencionada no Símbolo:
  • confessá-la é de grande importância para nossa vida.
- Nós cremos que a onipotência de Deus:
  • é universal, pois Deus que criou tudo, governa tudo e pode tudo;
·         é de amor, pois Deus é nosso Pai;
·         é misteriosa, pois somente a fé pode discerni-la, quando (a onipotência divina) "se manifesta na fraqueza" (2Cor 12,9).

"Ele faz tudo o que quer" (Sl 115,3)
- As Sagradas Escrituras professam reiteradas vezes o poder universal de Deus. Ele é chamado:
·         "o Poderoso de Jacó" (Gn 49,24; Is 1,24 e.o.),
·         "o Senhor dos exércitos", "o Forte, o Valente" (Sl 24,8-10).
- Se Deus é Todo-Poderoso "no céu e na terra" (Sl 135,6), é porque os fez.
- Por isso, nada lhe é impossível, e Ele dispõe a vontade de sua obra;
  • Ele é o Senhor do universo, cuja ordem estabeleceu, ordem esta que lhe permanece inteiramente submissa e disponível;
  • Ele é o Senhor da história: governa os corações e os acontecimentos a vontade.
"Teu grande poder está sempre a teu serviço, e
quem pode resistir à força de teu braço?" (Sb 11,21).

"Tu te compadeces de todos, porque tudo podes" (SB 11,23)
- Deus é o Pai Todo-Poderoso.
- Sua paternidade e seu poder iluminam-se mutuamente.
- Com efeito, ele mostra sua onipotência paternal pela maneira como cuida de nossas necessidades, pela adoção filial que nos outorga:
"Serei para vós um pai, e sereis para mim filhos e filhas,
diz o Senhor Todo-Poderoso": 2Cor 6,18,
e finalmente por sua misericórdia infinita, pois mostra seu poder no mais alto grau, perdoando livremente os pecados.

- A onipotência divina de modo algum é arbitrária:
"Em Deus o poder e a essência, a vontade e a inteligência, a sabedoria e a justiça são uma só e mesma coisa, de sorte que nada pode estar no poder divino que não possa estar na vontade justa de Deus ou em sua inteligência sábia".

O mistério da aparente impotência de Deus
- A fé em Deus Pai Todo-Poderoso pode ser posta a prova pela experiência do mal e do sofrimento.
- Por vezes, Deus pode parecer ausente e incapaz de impedir o mal.
- Ora, Deus Pai revelou sua Onipotência da maneira mais misteriosa no rebaixamento voluntário e na Ressurreição de seu Filho, pelos quais venceu o mal. Assim, Cristo crucificado é:
"poder de Deus e sabedoria de Deus.
Pois o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens, e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens" (1Cor 1,25).
- Foi na Ressurreição e na exaltação de Cristo que o Pai "desdobrou o vigor de sua força" e manifestou "que extraordinária grandeza reveste seu poder para nós, os que cremos" (Ef 1,19-22).

- Somente a fé pode aderir aos caminhos misteriosos onipotência de Deus.
- Esta fé gloria-se de suas fraquezas a fim de atrair sobre si o poder de Cristo.
- Desta fé, a Virgem Maria é o modelo supremo, ela que acreditou que "nada impossível a Deus" (Lc 1,37) e que pôde engrandecer o Senhor:
"O Todo-Poderoso fez grandes coisas em meu favor,
seu nome é Santo" (Lc 1,49).

- Por isso, nada é mais adequado para consolidar nossa Fé e nossa esperança do que a convicção profundamente gravada em nossas almas de que nada é impossível a Deus.
- Pois tudo o que a Profissão de Fé [o Credo] nos propõe a crer - as maiores coisas, as mais incompreensíveis, bem como as que mais ultrapassam as leis ordinárias da natureza, desde que nossa: razão tenha pelo menos idéia da onipotência divina, ela admitirá facilmente e sem qualquer hesitação.

CIC-Catecismo da Igreja Católica §268-274

Deus Pai

"Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo"
- Os cristãos são batizados "em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo". - Antes disso, eles respondem "Creio" a tríplice pergunta que os manda confessar sua fé no Pai, no Filho e no Espírito:
A fé de todos os cristãos consiste na Trindade"
- Os cristãos são batizados "em nome" do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e não "nos nomes" destes três, pois só existe um Deus, o Pai Todo-Poderoso, seu Filho Único e o Espírito Santo: a Santíssima Trindade.
- O mistério da Santíssima Trindade é o mistério central da fé e da vida cristã. É portanto, a fonte de todos os outros mistérios da fé, é a luz que os ilumina. É o ensinamento mais fundamental e essencial na "hierarquia das verdades de fé".
"Toda a história da salvação não é senão a história da via e dos meios pelos quais o Deus verdadeiro e Único, Pai, Filho e Espírito Santo, se revela, reconcilia consigo e une a si os homens que se afastam do pecado"
- As obras de Deus revelam quem Ele é em si mesmo e, inversamente, o mistério de seu Ser íntimo ilumina a compreensão de todas as suas obras.
- Acontece o mesmo, analogicamente, entre as pessoas humanas. A pessoa mostra-se em seu agir e, quanto melhor conhecermos uma pessoa, tanto melhor compreenderemos seu agir.

A revelação de Deus como Trindade
O Pai revelado pelo Filho
- A invocação de Deus como "Pai" é conhecida em muitas religiões.
- Ao designar a Deus com o nome de "Pai", a linguagem da fé indica principalmente dois aspectos: que Deus é origem primeira de tudo autoridade transcendente, e que ao mesmo tempo é bondade e solicitude de amor para todos os seus filhos.
- Esta ternura paterna de Deus pode também ser expressa pela imagem da maternidade, que indica a intimidade entre Deus e sua criatura.
- A linguagem da fé inspira-se, assim, na experiência humana dos pais (genitores), que são de certo modo os primeiros representantes de Deus para o homem. Mas esta experiência humana ensina também que os pais humanos são falíveis e que podem desfigurar o rosto da paternidade e da maternidade. Convém então lembrar que Deus transcende a distinção humana dos sexos. Ele não é nem homem nem mulher, é Deus. Transcende também a paternidade e a maternidade humanas embora seja a sua origem e a medida: ninguém é pai como Deus o é.

O Pai e o Filho revelados pelo Espírito
- Antes de sua Páscoa, Jesus anuncia o envio de "outro Paráclito" (Defensor), o Espírito Santo. Em ação desde a criação, depois de ter outrora "falado pelos profetas”, ele estará agora junto dos discípulos e neles, a fim de ensiná-1os e conduzi-los "a verdade inteira". O Espírito Santo é assim revelado como outra pessoa divina em relação a Jesus e ao Pai.
- A origem eterna do Espírito revela-se em sua missão temporal.
- O Espírito Santo é enviado aos apóstolos e a Igreja tanto pelo Pai, em nome do Filho, como pelo Filho em pessoa, depois que este tiver voltado para junto do Pai. O envio da pessoa do Espírito após a glorificação de Jesus revela em plenitude o mistério da Santíssima Trindade.

A Santíssima Trindade na doutrina da fé
Dogma da Santíssima Trindade
* A Trindade é Una. Não professamos três deuses, mas só Deus em três pessoas: "a Trindade consubstancial". As pessoas divinas não dividem entre si a única divindade, mas cada uma delas é Deus por inteiro:
  • o Pai é aquilo que é o Filho,
  • o Filho é aquilo que é o Pai,
  • o Espírito Santo é aquilo que são o Pai e o Filho, isto é, um só Deus por natureza.
* As pessoas divinas são realmente distintas entre si.
"Deus é único, mas não solitário". A Unidade divina é Trina:
  • aquele que é o Pai não é o Filho, e
  • aquele que é o Filho não é o Pai,
  • nem o Espírito Santo é aquele que é o Pai ou o Filho.
* As pessoas divinas são relativas umas às outras.
- Por não dividir a unidade divina, a distinção real das pessoas entre si reside unicamente nas relações que as referem umas às outras:
  • o Pai é referido ao Filho,
  • o filho ao Pai,
  • o Espírito Santo aos dois;
quando se fala destas três pessoas considerando as relações, crê-se todavia em uma só natureza ou substância.
  
As obras divinas e as missões trinitárias
- Ó luz, Trindade bendita. Ó primordial Unidade"! Deus é beatitude eterna, vida imortal, luz sem ocaso. Deus é amor: Pai, Filho e Espírito Santo.
- Livremente, Deus quer comunicar a glória de sua vida bem-aventurada. Este é o "desígnio" de benevolência que ele concebeu desde antes da criação do mundo no seu Filho bem-amado predestinando-nos à adoção filial neste", isto é, "a reproduzir a imagem do seu Filho" graças ao "Espírito de adoção filial".
- Esta decisão prévia é uma "graça concedida antes de todos os séculos", proveniente diretamente do amor trinitário. Ele se desdobra na obra da criação, em toda história da salvação após a queda, nas missões do Filho e do Espírito, prolongadas pela missão da Igreja.
- Toda a economia divina é obra comum das três pessoas divinas. Pois da mesma forma que a Trindade não tem senão uma única e mesma natureza, assim também não tem senão uma única e mesma operação.
- "O Pai, o Filho e o Espírito Santo não são três princípios das criaturas, mas um só princípio". Contudo cada pessoa divina cumpre a obra comum segundo sua propriedade pessoal.
- Assim a Igreja confessa, na linha do Novo Testamento:
  • um Deus e Pai do qual são todas as coisas,
  • um Senhor Jesus Cristo mediante o qual são todas as coisas,
  • um Espírito Santo em quem são todas as coisas.
- São sobretudo as missões divinas da Encarnação do Filho e do dom do Espírito Santo que manifestam as propriedades das pessoas divinas.

- Obra ao mesmo tempo comum e pessoal, toda a Economia divina dá a conhecer tanto a propriedade das pessoas divinas como sua única natureza. - Toda a vida cristã é comunhão com cada uma das pessoas divinas, sem de modo algum separá-las.
  • quem rende glória ao Pai o faz pelo Filho no Espírito Santo;
  • quem segue a Cristo, o faz porque o Pai atrai e o Espírito o impulsiona.
- O fim último de toda a Economia divina é a entrada das criaturas na unidade perfeita da Santíssima Trindade. Mas desde já somos chamados a ser habitados pela Santíssima Trindade:
"Se alguém me ama - diz o Senhor-, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará e viremos a ele, e faremos nele a nossa morada" (Jo 14,23).

CIC-Catecismo da Igreja Católica §232-260

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

O homem é capaz de Deus (2ª parte)

O conhecimento de Deus segundo a Igreja
- "A santa Igreja, nossa mãe, sustenta e ensina que Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana a partir das coisas criadas".
- Sem esta capacidade, o homem não poderia acolher a revelação de Deus.
- O homem tem esta capacidade por ser criado "à imagem de Deus".
- Todavia, nas condições históricas em que se encontra, o homem enfrenta muitas dificuldades para conhecer a Deus apenas com a luz de sua razão:
  • "Pois, embora a razão humana, absolutamente falando, possa chegar com suas forças e lume naturais ao conhecimento verdadeiro e certo de um Deus pessoal, que governa e protege o mundo com sua Providência, bem como chegar ao conhecimento da lei natural impressa pelo Criador em nossas almas, de fato, muitos são os obstáculos que impedem a mesma razão de usar eficazmente e com resultado desta sua capacidade natural.

  • As verdades que se referem a Deus e às relações entre os homens e Deus são verdades que transcendem completamente a ordem das coisas sensíveis e quando estas verdades atingem a vida prática e a regem, requerem sacrifício e abnegação.
A inteligência humana, na aquisição destas verdades, encontra dificuldades tanto por parte dos sentidos e da imaginação como por parte das más inclinações, provenientes do pecado original.
Donde vemos que os homens em tais questões, facilmente procuram persuadir-se de que seja falso ou ao menos duvidoso aquilo que não desejam que seja verdadeiro"

- Por isso, o homem tem necessidade de ser iluminado pela revelação de Deus, não somente sobre o que ultrapassa seu entendimento, mas também sobre "as verdades religiosas e morais que, de per si, não são inacessíveis à razão, a fim de que estas no estado atual do gênero humano possam ser conhecidas por todos sem dificuldade, com uma certeza firme e sem mistura de erro"

Como falar de Deus?
- Ao defender a capacidade da razão humana de conhecer a Deus, a Igreja exprime sua confiança na possibilidade de falar de Deus a todos os homens e com todos os homens.
- Esta convicção esta na base de seu diálogo com as outras religiões, com a filosofia e com as ciências, como também com os não-crentes e os ateus.

- Uma vez que nosso conhecimento de Deus é limitado, também limitada é nossa linguagem sobre Deus.
- Só podemos falar de Deus a partir das criaturas e segundo nosso modo humano limitado de conhecer e de pensar.

- As criaturas, todas elas, trazem em si certa semelhança com Deus, muito particularmente o homem criado à imagem e a semelhança de Deus.
- Por isso as múltiplas perfeições das criaturas (sua verdade, bondade e beleza) refletem a perfeição infinita de Deus.
- Em razão disso podemos falar de Deus a partir das perfeições de suas criaturas:
"pois a grandeza e a beleza das criaturas fazem,
por analogia, contemplar seu Autor" (Sb 13,5).

- Deus transcende a toda criatura. Por isso, é preciso incessantemente purificar nossa linguagem daquilo que possui de limitado, de proveniente de pura imaginação, de imperfeito, para não confundirmos o Deus "inefável, incompreensível, invisível, inatingível" com as nossas representações humanas.
- Nossas palavras humanas permanecem sempre aquém do Mistério de Deus.
- Assim falando de Deus, nossa linguagem se exprime, sem dúvida, de maneira humana, mas ela atinge realmente o próprio Deus, ainda que sem poder exprimi-lo em sua infinita simplicidade.
- Com efeito, é preciso lembrar que "entre o Criador e a criatura não se pode notar uma semelhança, sem que se deva notar entre eles uma ainda maior dessemelhança", e que "não podemos apreender de Deus o que ele é, mas apenas o que ele não é e de que maneira os outros seres se situam em relação a ele"
CIC-Catecismo da Igreja Católica §36-43

Homem superior a criação
- O homem é maior que as realidades criadas, não o contrário.
- Somente estará satisfeito quando atingir um bem superior a si.
- Como somente Eu Sou maior que o homem, disto decorre que somente Eu, Deus Eterno, consigo sacia-lo.
- Separado de Mim pelo pecado, o homem vive perenemente atormentado e sofredor.
(O Diálogo-Santa Catarina de Sena, pg192)

- O homem é superior a toda a criação.
- Só se satisfaz com bens superiores a Ele, que é Deus.
- Ao amar realidades inferiores a si, torna-se insaciável;
No entanto, são as coisas que devem servir ao homem, não vice-versa.
- Só a Mim deve o homem servir, Sou seu fim ultimo.

(O Diálogo-Santa Catarina de Sena, pg343)

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Novo Céu, Nova Terra

- No fim dos tempos, o Reino de Deus chegará à sua plenitude.
- Depois do Juízo Universal, os justos reinarão para sempre com Cristo, glorificados em corpo e alma, e o próprio universo será renovado:
·         Então a Igreja será "consumada na glória celeste, quando chegar o tempo da restauração de todas as coisas, e com o gênero humano também o mundo todo, que está intimamente ligado ao homem e por meio dele atinge sua finalidade, encontrará sua restauração definitiva em Cristo"

- Esta renovação misteriosa, que há de transformar a humanidade e o mundo, a Sagrada Escritura a chama de "céus novos e terra nova" (2Pd 3,13).
- Será a realização definitiva do projeto de Deus de "reunir, sob um só chefe, Cristo, todas as coisas, as que estão no céu e as que estão na terra" (Ef 1,10).

- Neste "universo novo", a Jerusalém celeste, Deus terá sua morada entre os homens:
"Enxugará toda lágrima de seus olhos, pois nunca mais haverá morte,
nem luto, nem clamor, e nem dor haverá mais.
Sim! As coisas antigas se foram!" (Ap 21,4).

- Para o homem, esta consumação será a realização última da unidade do gênero humano, querida por Deus desde a criação e da qual a Igreja peregrinante era "como o sacramento".
- Os que estiverem unidos a Cristo formarão a comunidade dos remidos, a cidade santa de Deus (Ap 21,2), "a Esposa do Cordeiro" (Ap 21,9).
- Esta não será mais ferida pelo pecado, pelas impurezas, pelo amor-próprio, que destroem ou ferem a comunidade terrestre dos homens.
- A visão beatífica, na qual Deus se revelará de maneira inesgotável aos eleitos, será a fonte inexaurível de felicidade, de paz e de comunhão mútua.

- Quanto ao cosmos, a Revelação afirma a profunda comunidade de destino do mundo material e do homem:
·         Pois a criação em expectativa anseia pela revelação dos filhos de Deus (...) na esperança de ela também ser libertada da escravidão da corrupção (...). Pois sabemos que a criação inteira geme e sofre as dores de parto até o presente. E não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, gememos interiormente, suspirando pela redenção de nosso corpo (Rm 8,19-23).

- Também o universo visível está, portanto, destinado a ser transformado, "a fim de que o próprio mundo, restaurado em seu primeiro estado, esteja, sem mais nenhum obstáculo, a serviço dos justos", participando de sua glorificação em Cristo ressuscitado.

- Ignoramos o tempo da consumação da terra e da humanidade e desconhecemos a maneira de transformação do universo.
- Passa certamente a figura deste mundo deformada pelo pecado, mas aprendemos que Deus prepara uma nova morada e nova terra.
- Nela reinará a justiça, e sua felicidade irá satisfazer e superar todos os desejos de paz que sobem aos corações dos homens.

- Contudo, a expectativa de uma terra nova, longe de atenuar, deve impulsionar em vós a solicitude pelo aprimoramento desta terra.
- Nela cresce o corpo da nova família humana que já pode apresentar algum esboço do novo século. Por isso, ainda que o progresso terrestre se deva distinguir cuidadosamente do aumento do Reino de Cristo, ele é de grande interesse para o Reino de Deus, na medida em que pode contribuir para melhor organizar a sociedade humana.

- Com efeito, depois que propagarmos na terra, no Espírito do Senhor e por ordem sua, os valores da dignidade humana, da humanidade fraterna e da liberdade, todos estes bons frutos da natureza e de nosso trabalho, nós os encontraremos novamente, limpos, contudo, de toda impureza, iluminados e transfigurados, quando Cristo entregar ao Pai o reino eterno e universal. Deus será, então, "tudo em todos" (1 Cor 15,28), na Vida Eterna:
·         A vida, em sua própria realidade e verdade, é o Pai que, pelo Filho e no Espírito Santo, derrama sobre todos, sem exceção, dons celestes. Graças à sua misericórdia também nós, os homens, recebemos a promessa indefectível da Vida Eterna.

CIC-Catecismo da Igreja Católica §1042-1050