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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Deus Criador, 3ª parte

Deus realiza o seu projeto: a divina providência
- A criação tem sua bondade e sua perfeição próprias, mas não saiu completamente acabada das mãos do Criador. Ela é criada "em estado de caminhada" para uma perfeição última a ser ainda atingida, para a qual Deus a destinou. Chamamos de divina providência as disposições pelas quais Deus conduz sua criação para esta perfeição:
  • Deus conserva e governa com sua providência tudo o que criou; ela se estende "com vigor de um extremo ao outro e governa o universo com suavidade" (Sb 8,1). Pois "tudo está nu e descoberto aos seus olhos" (Hb 4,13), mesmo os atos dependentes da ação livre das criaturas.
- O testemunho da Escritura é unânime: a solicitude da divina providência é concreta e direta, toma cuidado de tudo, desde as mínimas coisas até os grandes acontecimentos do mundo e da história.
- Com vigor, os livros sagrados afirmam a soberania absoluta de Deus no curso dos acontecimentos:
  • "O nosso Deus está no céu e faz tudo o que deseja" (S1 115,3);
e de Cristo se diz:
  • "O que abre e ninguém mais fecha, e, fechando, ninguém mais abre" (Ap 3,7).
  • "Muitos são os projetos do coração humano, mas é o desígnio do Senhor que permanece firme" (Pr 19,21).
- Assim vemos o Espírito Santo, autor principal da Escritura, atribuir muitas vezes ações a Deus, sem mencionar causas segundas. Esta não é uma "maneira de falar" primitiva, mas uma forma profunda de lembrar o primado de Deus e o seu senhorio absoluto sobre a história e o mundo e de assim educar para a confiança nele. A oração dos Salmos é a grande escola desta confiança.

A providência e as causas segundas
- Deus é o Senhor soberano de seus desígnios. Mas, para a realização dos mesmos, serve-se também do concurso das criaturas. Isso não é um sinal de fraqueza, mas da grandeza e da bondade do Deus Todo-Poderoso. Pois Deus não somente dá as suas criaturas o existir, mas também a dignidade de agirem elas mesmas, de serem causas e princípios umas das outras e de assim cooperarem no cumprimento de seu desígnio.
- Aos homens, Deus concede até de poderem participar livremente de sua providência, confiando-lhes a responsabilidade de "submeter" a terra e de dominá-la.
- Deus concede assim aos homens serem causas inteligentes e livres para completar a obra da Criação, aperfeiçoar sua harmonia para o bem deles e de seus próximos.
- Cooperadores muitas vezes inconscientes da vontade divina, os homens podem entrar deliberadamente no plano divino, por suas ações, por suas orações, mas também por seus sofrimentos. Tornam-se então plenamente "cooperadores de Deus" (1Cor 3,9) e do seu Reino.
- Eis uma verdade inseparável da fé em Deus Criador: Deus age em todo o agir de suas criaturas. E é a causa primeira que opera nas causas segundas e por meio delas: "Pois é Deus quem opera em vós o querer e o operar, segundo a sua vontade" (Fl 2,13).

A providência e o escândalo do mal
- Se Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do mundo ordenado e bom, cuida de todas as suas criaturas, por que então o mal existe? Para esta pergunta tão premente quão inevitável, tão dolorosa quanto misteriosa, não há uma resposta rápida. É o conjunto da fé cristã que constitui a resposta a esta pergunta: a bondade da criação, o drama do pecado, o amor paciente de Deus que se antecipa ao homem por suas Alianças, pela Encarnação redentora de seu Filho, pelo dom do Espírito, pelo congraçamento da Igreja, pela força dos sacramentos, pelo chamado a uma vida bem-aventurada a qual as criaturas livres são convidadas antecipadamente a assentir, mas da qual podem, por um terrível mistério, abrir mão também antecipadamente. Não há nenhum elemento da mensagem cristã que não seja, por uma parte, uma resposta a questão do mal.
- Mas por que Deus não criou um mundo tão perfeito que nele não possa existir mal algum?
- Todavia, em sua sabedoria e bondade infinitas, Deus quis livremente criar um mundo "em estado de caminhada" para sua perfeição última. Este devir permite, no desígnio de Deus, juntamente com o aparecimento de determinados seres, também o desaparecimento de outros, juntamente com o mais perfeito, também o menos imperfeito, juntamente com as construções da natureza, também as destruições. Juntamente com o bem físico existe, portanto, o mal físico, enquanto a criação não houver atingido sua perfeição.
- Os anjos e os homens, criaturas inteligentes e livres, devem caminhar para seu destino último por opção livre e amor preferencial.
- Podem, no entanto, desviar-se. E, de fato, pecaram. Foi assim que o mal moral entrou no mundo, incomensuravelmente mais grave do que o mal físico. Deus não é de modo algum, nem direta nem indiretamente, a causa do mal moral. Todavia, permite-o, respeitando a liberdade de sua criatura e, misteriosamente, sabe auferir dele o bem:
  • Pois o Deus Todo-Poderoso..., por ser soberanamente bom, nunca deixaria qualquer mal existir em suas obras se não fosse bastante poderoso e bom para fazer resultar o bem do próprio ma1.
- Assim, com o passar do tempo, pode-se descobrir que Deus, em sua providência todo-poderosa, pode extrair um bem das conseqüências de um mal, mesmo moral, causado por suas criaturas:
"Não fostes vós, diz José a seus irmãos, que me enviastes para cá, foi Deus; - o mal que tínheis a intenção de fazer-me, o desígnio de Deus o mudou em bem a fim de - salvar a vida de um povo numeroso" (Gn 45,8; 50,20).
- Do maior mal moral jamais cometido, a saber, a rejeição e homicídio do Filho de Deus, causado pelos pecados de todos os homens, Deus, pela superabundância de sua graça, tirou o maior dos bens:
  • a glorificação de Cristo e a nossa Redenção.
Com isso, porém, o mal não se converte em um bem.
- "Sabemos que, para os que amam a Deus, tudo concorre para o bem" (Rm 8,28). O testemunho dos santos não cessa de confirmar esta verdade:
  • "àqueles que se escandalizam e se revoltam com o que lhes acontece": "Tudo procede do amor tudo está ordenado à salvação do homem, Deus não faz nada que não seja para esta finalidade"
  • "Não pode acontecer nada que Deus não tenha querido. Ora, tudo o que ele quer, por pior que possa parecer-nos, é o que há de melhor para nós"
- Cremos firmemente que Deus é o Senhor do mundo e da história. Mas os caminhos de sua providência muitas vezes nos são desconhecidos.
- Só no final, quando acabar o nosso conhecimento parcial, quando virmos Deus "face a face", teremos pleno conhecimento dos caminhos pelos quais, mesmo por meio dos dramas do mal e do pecado, Deus terá conduzido sua criação até o descanso desse Sábado definitivo, em vista do qual criou o céu e a terra.

CIC-Catecismo da Igreja Católica §302-314

domingo, 5 de janeiro de 2014

Deus Todo Poderoso

- De todos os atributos divinos, só a onipotência de Deus é mencionada no Símbolo:
  • confessá-la é de grande importância para nossa vida.
- Nós cremos que a onipotência de Deus:
  • é universal, pois Deus que criou tudo, governa tudo e pode tudo;
·         é de amor, pois Deus é nosso Pai;
·         é misteriosa, pois somente a fé pode discerni-la, quando (a onipotência divina) "se manifesta na fraqueza" (2Cor 12,9).

"Ele faz tudo o que quer" (Sl 115,3)
- As Sagradas Escrituras professam reiteradas vezes o poder universal de Deus. Ele é chamado:
·         "o Poderoso de Jacó" (Gn 49,24; Is 1,24 e.o.),
·         "o Senhor dos exércitos", "o Forte, o Valente" (Sl 24,8-10).
- Se Deus é Todo-Poderoso "no céu e na terra" (Sl 135,6), é porque os fez.
- Por isso, nada lhe é impossível, e Ele dispõe a vontade de sua obra;
  • Ele é o Senhor do universo, cuja ordem estabeleceu, ordem esta que lhe permanece inteiramente submissa e disponível;
  • Ele é o Senhor da história: governa os corações e os acontecimentos a vontade.
"Teu grande poder está sempre a teu serviço, e
quem pode resistir à força de teu braço?" (Sb 11,21).

"Tu te compadeces de todos, porque tudo podes" (SB 11,23)
- Deus é o Pai Todo-Poderoso.
- Sua paternidade e seu poder iluminam-se mutuamente.
- Com efeito, ele mostra sua onipotência paternal pela maneira como cuida de nossas necessidades, pela adoção filial que nos outorga:
"Serei para vós um pai, e sereis para mim filhos e filhas,
diz o Senhor Todo-Poderoso": 2Cor 6,18,
e finalmente por sua misericórdia infinita, pois mostra seu poder no mais alto grau, perdoando livremente os pecados.

- A onipotência divina de modo algum é arbitrária:
"Em Deus o poder e a essência, a vontade e a inteligência, a sabedoria e a justiça são uma só e mesma coisa, de sorte que nada pode estar no poder divino que não possa estar na vontade justa de Deus ou em sua inteligência sábia".

O mistério da aparente impotência de Deus
- A fé em Deus Pai Todo-Poderoso pode ser posta a prova pela experiência do mal e do sofrimento.
- Por vezes, Deus pode parecer ausente e incapaz de impedir o mal.
- Ora, Deus Pai revelou sua Onipotência da maneira mais misteriosa no rebaixamento voluntário e na Ressurreição de seu Filho, pelos quais venceu o mal. Assim, Cristo crucificado é:
"poder de Deus e sabedoria de Deus.
Pois o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens, e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens" (1Cor 1,25).
- Foi na Ressurreição e na exaltação de Cristo que o Pai "desdobrou o vigor de sua força" e manifestou "que extraordinária grandeza reveste seu poder para nós, os que cremos" (Ef 1,19-22).

- Somente a fé pode aderir aos caminhos misteriosos onipotência de Deus.
- Esta fé gloria-se de suas fraquezas a fim de atrair sobre si o poder de Cristo.
- Desta fé, a Virgem Maria é o modelo supremo, ela que acreditou que "nada impossível a Deus" (Lc 1,37) e que pôde engrandecer o Senhor:
"O Todo-Poderoso fez grandes coisas em meu favor,
seu nome é Santo" (Lc 1,49).

- Por isso, nada é mais adequado para consolidar nossa Fé e nossa esperança do que a convicção profundamente gravada em nossas almas de que nada é impossível a Deus.
- Pois tudo o que a Profissão de Fé [o Credo] nos propõe a crer - as maiores coisas, as mais incompreensíveis, bem como as que mais ultrapassam as leis ordinárias da natureza, desde que nossa: razão tenha pelo menos idéia da onipotência divina, ela admitirá facilmente e sem qualquer hesitação.

CIC-Catecismo da Igreja Católica §268-274

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

A Revelação de Deus

Deus revela seu projeto benevolente
- "Aprouve a Deus, em sua bondade e sabedoria, revelar-se a si mesmo e tornar conhecido o mistério de sua vontade, pelo qual os homens, por intermédio de Cristo, Verbo feito carne, no Espírito Santo, têm acesso ao Pai e se tomam participantes da natureza divina".
- Deus, que "habita uma luz inacessível" (1 Tm 6,16), quer comunicar sua própria vida divina aos homens, criados livremente por ele, para fazer deles, no seu Filho único, filhos adotivos.
- Ao revelar-se, Deus quer tornar os homens capazes de responder-lhe, de conhecê-lo e de amá-lo bem além do que seriam capazes por si mesmos.
- O projeto divino da Revelação realiza-se ao mesmo tempo "por ações e por palavras, intimamente ligadas entre si e que se iluminam mutuamente". - Este projeto comporta uma "pedagogia divina" peculiar: Deus comunica-se gradualmente com o homem, prepara-o por etapas a acolher a Revelação sobrenatural que faz de si mesmo e que vai culminar na Pessoa e na missão do Verbo encarnado, Jesus Cristo.

Desde a origem, Deus se dá a conhecer
- "Criando pelo Verbo o universo e conservando-o, Deus proporciona aos homens, nas coisas criadas, um permanente testemunho de si e, além disso, no intuito de abrir o caminho de uma salvação superior, manifestou-se a si mesmo, desde os primórdios, a nossos primeiros pais." Convidou-os a uma comunhão íntima consigo mesmo, revestindo-os de uma graça e de uma justiça resplandecentes.
- Esta Revelação não foi interrompida pelo pecado de nossos primeiros pais. Deus, com efeito, "após a queda destes, com a prometida redenção, alentou-os a esperar uma salvação e velou permanentemente pelo gênero humano, a fim de dar a vida eterna a todos aqueles que, pela perseverança na prática do bem, procuram a salvação"

A Aliança com Noé
- Desfeita a unidade do gênero humano pelo pecado, Deus procura antes de tudo salvar a humanidade passando por cada uma de suas partes.
- A Aliança com Noé depois do dilúvio exprime o princípio da Economia divina para com as "nações", isto é, para com os homens agrupados "segundo seus países, cada um segundo sua língua, e segundo seus clãs"
- Esta ordem ao mesmo tempo cósmica, social e religiosa da pluralidade das nações destina-se a limitar o orgulho de uma humanidade decaída que unânime em sua perversidade, gostaria de construir por si mesma sua unidade à maneira de Babel. Contudo, devido ao pecado, o politeísmo, assim como a idolatria da nação e de seu chefe, constitui uma contínua ameaça de perversão pagã para essa Economia provisória.
- A Aliança com Noé permanece em vigor durante todo o tempo das nações, até a proclamação universal do Evangelho.
- A Bíblia venera algumas grandes figuras das "nações", tais como "Abel, o justo", o rei-sacerdote Melquisedeque, figura de Cristo, ou os justos "Noé, Daniel e Jó". Assim, a Escritura exprime que grau elevado de santidade podem atingir os que vivem segundo a Aliança de Noé, na expectativa de que Cristo "congregue na unidade todos os filhos de Deus dispersos".

Deus elege Abraão
- Para congregar a humanidade dispersa, Deus elegeu Abrão, chamando-o "para fora de seu país, de sua parentela e de sua casa" (Gn 12,1), para fazer dele "Abraão", isto é, "o pai de uma multidão de nações" (Gn 17,5):
"Em ti serão abençoadas todas as nações da terra" (Gn 12,3).
- O povo originado de Abraão será o depositário da promessa feita aos patriarcas, o povo da eleição, chamado a preparar o congraçamento, um dia, de todos os filhos de Deus na unidade da Igreja; será a raiz sobre a qual serão enxertados os pagãos tornados crentes.
- Os patriarcas e os profetas, bem como outras personalidades do Antigo Testamento, foram e serão sempre venerados como santos em todas as tradições litúrgicas da Igreja.

Deus forma seu povo Israel
- Depois dos patriarcas, Deus formou Israel como seu povo, salvando-o da escravidão do Egito. Fez com ele a Aliança do Sinai e deu-lhe, por intermédio de Moisés, a sua Lei, para que o reconhecesse e o servisse como o único Deus vivo e verdadeiro, Pai providente e juiz justo, e para que esperasse o Salvador prometido.
- Israel é o Povo sacerdotal de Deus, aquele que "traz o Nome do Senhor" (Dt 28,10). É o povo daqueles "aos quais Deus falou em primeiro lugar", o povo dos "irmãos mais velhos" da fé de Abraão.
- Por meio dos profetas, Deus forma seu povo na esperança da salvação, na expectativa de uma Aliança nova e eterna destinada a todos os homens, e que será impressa nos corações.
- Os profetas anunciam uma redenção radical do Povo de Deus, a purificação de todas as suas infidelidades, uma salvação que incluirá todas as nações.
- Serão sobretudo os pobres e os humildes do Senhor os portadores desta esperança. As mulheres santas como Sara, Rebeca, Raquel, Míriam, Débora, Ana, Judite e Ester mantiveram viva a esperança da salvação de Israel. Delas todas, a figura mais pura é a de Maria.

Deus disse tudo no seu Verbo
- "Muitas vezes e de modos diversos falou Deus, outrora, aos pais pelos profetas; agora, nestes dias que são os últimos, falou-nos por meio do Filho" (Hb 1,1-2). Cristo, o Filho de Deus feito homem, é a Palavra única, perfeita e insuperável do Pai. Nele o Pai disse tudo, e não há outra palavra senão esta. São João da Cruz, depois de tantos outros, exprime isto de maneira luminosa, comentando Hb 1,1-2:
  • Porque em dar-nos, como nos deu, seu Filho, que é sua Palavra única (e outra não há), tudo nos falou de uma só vez nessa única Palavra, e nada mais tem a falar, (...) pois o que antes falava por partes aos profetas agora nos revelou inteiramente, dando-nos o Tudo que é seu Filho. Se atualmente, portanto, alguém quisesse interrogar a Deus, pedindo-lhe alguma visão ou revelação, não só cairia numa insensatez, mas ofenderia muito a Deus por não dirigir os olhares unicamente para Cristo sem querer outra coisa ou novidade alguma.
Não haverá outra revelação
- "A Economia cristã, portanto, como aliança nova e definitiva, jamais passará, e já não há que esperar nenhuma nova revelação pública antes da gloriosa manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo". Todavia, embora a Revelação esteja terminada, não está explicitada por completo; caberá à fé cristã captar gradualmente todo o seu alcance ao longo dos séculos.
- A fé cristã não pode aceitar "revelações" que pretendam ultrapassar ou corrigir a Revelação da qual Cristo é a perfeição. Este é o caso de certas religiões não-cristãs e também de certas seitas recentes que se fundamentam em tais "revelações".

CIC-Catecismo da Igreja Católica 51-67

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Salmo 18

- A lei do Senhor é perfeita:
faz a vida voltar;
- O testemunho do Senhor é firme:
torna sábio o simples;
- Os preceitos do Senhor são retos:
alegram o coração;
- O mandamento do Senhor é claro:
ilumina os olhos.
- O temor do Senhor é puro:
estável para sempre;
- As decisões do Senhor são verdadeiras:
e justas igualmente;
são mais desejáveis do que o ouro, muito ouro refinado;
- Suas Palavras são mais doces do que o mel,
escorrendo dos favos.

Senhor:
- Que te agradem, as palavras de minha boca e o meditar de meu coração.
Senhor, meu rochedo, redentor meu!

domingo, 13 de outubro de 2013

Pai Nosso explicado

Pai Nosso
- Um dia, em certo lugar, Jesus rezava. Quando terminou, um de seus discípulos pediu-lhe: “Senhor, ensina-nos a orar como João ensinou a seus discípulos”. È em resposta a este pedido que o Senhor confia a seus discípulos e à sua Igreja a oração cristã fundamental, o Pai-Nosso.

Pai Nosso que estais no céu...
- Se rezamos verdadeiramente ao "Nosso Pai", saímos do individualismo, pois o Amor que acolhemos nos liberta (do individualismo). O "nosso" do início da Oração do Senhor, como o "nós" dos quatro últimos pedidos, não exclui ninguém. Para que seja dito em verdade, nossas divisões e oposições devem ser superadas.
  • É com razão que estas palavras "Pai Nosso que estais no céu" provêm do coração dos justos, onde Deus habita como que em seu templo. Por elas também o que reza desejará ver morar em si aquele que ele invoca.

Os sete pedidos
- Depois de nos ter posto na presença de Deus, nosso Pai, para adorá-lo, amá-lo e bendizê-lo, o Espírito filial faz subir de nossos corações sete pedidos, sete bênçãos:
- Os três primeiros pedidos nos leva em direção a Ele, para Ele:
vosso Nome, vosso Reino, vossa Vontade!
É próprio do amor pensar primeiro naquele que amamos.
- Em cada um destes três pedidos não nos mencionamos, mas o que se apodera de nós é "o desejo ardente", "a angústia", do Filho bem-amado para a Glória de seu Pai: "Seja santificado... Venha... Seja feita...":
essas três súplicas já foram atendidas pelo Sacrifício do Cristo Salvador, mas se elevam doravante, na esperança, para seu cumprimento final, enquanto Deus ainda não é tudo em todos.

- Os quatro últimos pedidos desenrola-se no ritmo de certas invocações eucarísticas: é apresentação de nossas expectativas e atrai o olhar do Pai das misericórdias. Sobe de nós e nos diz respeito desde agora, neste mundo:
  • dai-nos... perdoai-nos... referem-se à nossa vida, como tal, seja para alimentá-la, seja para curá-la do pecado.
  • não nos deixeis... livrai-nos... referem-se ao nosso combate pela vitória da Vida, o combate da própria oração.
Santificado seja o Vosso Nome...
- Na água do Batismo fomos "lavados, santificados, justificados em nome do Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito de nosso Deus". Durante toda nossa vida, nosso Pai “nos chama à santidade”. E, já que é "por ele que vós sois em Cristo Jesus, que se tornou para nós santificação", contribui para sua Glória e para nossa vida o fato de seu nome ser santificado em nós e por nós. Essa é a urgência de nosso primeiro pedido.
  • Quem poderia santificar a Deus, já que é Ele mesmo quem santifica? Mas, inspirando-nos nesta palavra: "Sede santos porque eu sou Santo", nós pedimos que, santificado pelo Batismo, perseveremos naquilo que começamos a ser. Pedimos todos os dias, porque cometemos faltas todos os dias e devemos purificar-nos de nossos pecados por uma santificação retomada sem cessar... Recorremos, portanto, à oração para que esta santidade permaneça em nós.

Venha a nós o Vosso Reino...
- O Reino de Deus existe antes de nós. Aproximou-se no Verbo encarnado, é anunciado ao longo de todo o Evangelho, veio na morte e na Ressurreição de Cristo. O Reino de Deus vem desde a santa Ceia e na Eucaristia: ele está no meio de nós. O Reino virá na glória quando Cristo o restituir a seu Pai:
  • O Reino de Deus pode até significar o Cristo em pessoa, a quem invocamos com nossas súplicas todos os dias e cuja vinda queremos apressar por nossa espera. Assim como Ele é nossa Ressurreição, pois nele nós ressuscitamos, assim também pode ser o Reino de Deus, pois nele nós reinaremos.

Seja feita a Vossa Vontade, assim na terra como no céu...
- Pela oração é que podemos "discernir qual é a vontade de Deus" e obter "a perseverança para cumpri-la".
Jesus nos ensina que entramos no Reino dos céus não por palavras, mas “praticando a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7,21).

"Se alguém faz a vontade de Deus, a este Deus escuta" (Jo 9,31).
Tal é a força da oração da Igreja em Nome de seu Senhor, sobretudo na Eucaristia; é comunhão de intercessão com a Santíssima Mãe de Deus e com todos os santos que foram "agradáveis" ao Senhor por não terem querido fazer senão a Sua Vontade.
O pão nosso de cada dia nos daí hoje...
"Reza e trabalha." "Rezai como se tudo dependesse de Deus e trabalhai como se tudo dependesse de vós." Tendo realizado nosso trabalho, o alimento fica sendo um dom de nosso Pai; convém pedi-lo e disso render-lhe graças. É esse o sentido da bênção da mesa numa família cristã.
- Este pedido e a responsabilidade que ele implica valem também para outra fome da qual os homens padecem: "O homem não vive apenas de pão, mas de tudo aquilo que procede da boca de Deus", isto é, Sua Palavra e seu Sopro.
­ Os cristãos devem envidar todos os seus esforços para "anunciar o Evangelho aos pobres". Há uma fome na terra, "não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir a Palavra de Deus" (Amós 8,11). Por isso, o sentido especificamente cristão desse quarto pedido refere-se ao Pão de Vida: a Palavra de Deus a ser acolhida na fé, o Corpo de Cristo recebido na Eucaristia.
  • A Eucaristia é nosso pão cotidiano. A virtude própria deste alimento divino é uma força de união que nos vincula ao Corpo do Salvador e nos faz seus membros, a fim de que nos transformemos naquilo que recebemos... Este pão cotidiano está ainda nas leituras que ouvis cada dia na Igreja, nos hinos que são cantados e que vós cantais. Tudo isso é necessário à nossa peregrinação.
- O Papai do céu nos exorta a pedir, como filhos do céu, o Pão do céu, Cristo: "é Ele mesmo o pão que, semeado na Virgem, levedado na carne, amassado na Paixão, cozido no forno do sepulcro, colocado em reserva na Igreja, levado aos altares, proporciona cada dia aos fiéis um alimento celeste".

Perdoai-nos as nossas ofensas,
assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido...
- Neste pedido, nós nos voltamos ao Papai como o filho pródigo, e nos reconhecemos pecadores, diante dele, como o publicano (Lc 15, 11-32; 18,13).
- Nosso pedido começa por uma "confissão", na qual declaramos, ao mesmo tempo, nossa miséria e Sua Misericórdia.
- Este mar de misericórdia não pode penetrar em nosso coração enquanto não tivermos perdoado aos que nos ofenderam.
- O amor, como o Corpo de Cristo, é indivisível: não podemos amar o Deus que não vemos, se não amamos o irmão, a irmã, que vemos.
Recusando-nos a perdoar nossos irmãos e irmãs, nosso coração se fecha,
sua dureza o torna impermeável ao amor misericordioso do Papai.
- Confessando nosso pecado, nosso coração se abre à sua graça.
Oremos: Por livre vontade e a exemplo de Jesus, perdoo, rezo, amo, abençoo e agradeço a Deus pela vida de todas as pessoas que sinto que me rejeitam, me odeiam e amaldiçoam, não me amam, não me aceitam, me difamam e perseguem.
Não nos deixeis cair em tentação...
- Este pedido atinge a raiz do precedente, pois nossos pecados são fruto do consentimento na tentação. Pedimos ao nosso Papai que não nos "deixe cair" nela. Nós lhe pedimos que não nos deixe enveredar pelo caminho que conduz ao pecado. Estamos empenhados no combate "entre a carne e o Espírito". Este pedido implora o Espírito de discernimento e de fortaleza.

- O Espírito Santo nos faz discernir entre a provação, necessária ao crescimento do homem interior em vista de uma "virtude comprovada", e a tentação, que leva ao pecado e à morte. Devemos também discernir entre "ser tentado e consentir" na tentação. Por fim, o discernimento desmascara a mentira da tentação: aparentemente, seu objeto é "bom, sedutor para a vista, agradável" (Gn 3,6), ao passo que, na realidade, seu fruto é a morte.

Livrai-nos do mal...
- O último pedido ao nosso Papai aparece, também, na oração de Jesus: "Não te peço que os tires do mundo, mas que os guardes do maligno" (Jo 17,15). Diz respeito a cada um de nós pessoalmente, mas somos sempre "nós" que rezamos em comunhão com toda a Igreja e pela libertação de toda a família humana.

"Homicida desde o princípio, mentiroso e pai da mentira" (Jo 8,44), "Satanás, sedutor de toda a terra habitada" (Ap 12,9), foi por ele que o pecado e a morte entraram no mundo e é por sua derrota definitiva que a criação toda será "liberta da corrupção do pecado e da morte".
- Ao pedir que nos livre do maligno, pedimos igualmente que sejamos libertados de todos os males, presentes, passados e futuros, dos quais ele é autor ou instigador.

- Neste último pedido, a Igreja traz toda a miséria do mundo diante do Pai. - Com a libertação dos males que oprimem a humanidade, ela implora o dom precioso da paz e a graça de esperar perseverantemente o retorno de Cristo. Rezando dessa forma, ela antecipa, na humildade da fé, a recapitulação de todos e de tudo naquele que...
"detém as chaves da morte e do hades" (Ap 1,18),
"O Todo-Poderoso, Aquele que é, Aquele que era Aquele que vem" (Ap 1,8).

(CIC-Catecismo da Igreja Católica §2759-2865)
Imprima frente e verso folha A4 (folheto)

sábado, 5 de outubro de 2013

Providência Divina

Divina Providência
- A criação tem sua bondade e sua perfeição próprias, mas não saiu completamente acabada das mãos do Criador. Ela é criada "em estado de caminhada" para uma perfeição última a ser ainda atingida, para a qual Deus a destinou. Chamamos de Divina Providência as disposições pelas quais Deus conduz sua criação para esta perfeição:
  • Deus conserva e governa com sua providência tudo o que criou; ela se estende "com vigor de um extremo ao outro e governa o universo com suavidade" (Sb 8,1). Pois "tudo está nu e descoberto aos seus olhos" (Hb 4,13), mesmo os atos dependentes da ação livre das criaturas.

O homem e a Providência
- Deus é o Senhor soberano de seus desígnios. Mas, para a realização dos mesmos, serve-se também do concurso das criaturas. Isso não é um sinal de fraqueza, mas da grandeza e da bondade do Deus Todo-Poderoso. Pois Deus não somente dá às suas criaturas o existir, mas também a dignidade de agirem elas mesmas, de serem causas e princípios umas das outras e de assim cooperarem no cumprimento de seu desígnio.

- Aos homens, Deus concede até de poderem participar livremente de sua providência, confiando-lhes a responsabilidade de "submeter" a terra e de dominá-la. Deus concede assim aos homens serem causas inteligentes e livres para completar a obra da Criação, aperfeiçoar sua harmonia para o bem deles e de seus próximos.
- Cooperadores muitas vezes inconscientes da vontade divina, os homens podem entrar deliberadamente no plano divino, por suas ações, por suas orações, mas também por seus sofrimentos. Tornam-se então plenamente "cooperadores de Deus" (1Cor 3,9) e do seu Reino.

A Providência e o escândalo do mal
- Se Deus Pai Todo-Poderoso, Criador do mundo ordenado e bom, cuida de todas as suas criaturas, por que então o mal existe?
O conjunto da fé cristã constitui a resposta a esta pergunta:
  • a bondade da criação,
  • o drama do pecado,
  • o amor paciente de Deus que se antecipa ao homem por suas Alianças,
  • pela Encarnação redentora de seu Filho,
  • pelo dom do Espírito,
  • pela Igreja,
  • pela força dos sacramentos,
  • pelo chamado a uma vida bem-aventurada à qual as criaturas livres são convidadas antecipadamente a assentir, mas da qual podem, por um terrível mistério, abrir mão também antecipadamente.
Não há nenhum elemento da mensagem cristã que não seja, por uma parte, uma resposta da providência à questão do mal.

- Mas por que Deus não criou um mundo tão perfeito que nele não possa existir mal algum?
- Segundo seu poder infinito, Deus sempre poderia criar algo melhor:
  • Todavia, em sua sabedoria e bondade infinitas, Deus quis livremente criar um mundo "em estado de caminhada" para sua perfeição última. Este devir permite, no desígnio de Deus, juntamente com o aparecimento de determinados seres, também o desaparecimento de outros, juntamente com o mais perfeito, também o menos imperfeito, juntamente com as construções da natureza, também as destruições. Juntamente com o bem físico existe, portanto, o mal físico, enquanto a criação não houver atingido sua perfeição.

- Os anjos e os homens, criaturas inteligentes e livres, devem caminhar para seu destino último por opção livre e amor preferencial. Podem, no entanto, desviar-se. E, de fato, pecaram:
  • Foi assim que o mal moral entrou no mundo, incomensuravelmente mais grave do que o mal físico. Deus não é de modo algum, nem direta nem indiretamente, a causa do mal moral. Todavia, permite-o, respeitando a liberdade de sua criatura e, misteriosamente, sabe auferir dele o bem:
- Pois o Deus Todo-Poderoso..., por ser soberanamente bom, nunca deixaria qualquer mal existir em suas obras se não fosse bastante poderoso e bom para fazer resultar o bem do próprio ma1.
- Cremos firmemente que Deus é o Senhor do mundo e da história. Mas os caminhos de sua providência muitas vezes nos são desconhecidos.
- Só no final, quando acabar o nosso conhecimento parcial, quando virmos Deus "face a face", teremos pleno conhecimento dos caminhos pelos quais, mesmo por meio dos dramas do mal e do pecado, Deus terá conduzido sua criação até o descanso, em vista do qual criou o céu e a terra.
CIC-Catecismo da Igreja Católica § 302-314
A Providência e a reconstrução do homem
- A humanidade não foi leal e fiel para comigo:
  • desobedeceu minha ordem (Gn 2,17) e achou a morte.
- De minha parte mantive a fidelidade, conservei a finalidade para a qual a criara, com a intenção de dar ao homem a felicidade.
- Uni a natureza divina, tão perfeita, à misera natureza humana, resgatei a humanidade, restitui-lhe a graça pela morte de meu Filho.
- Os homens sabem de tudo isso mas não acreditam que sou:
  • poderoso para socorrê-los,
  • forte para auxilia-los e defende-los dos inimigos,
  • sábio para iluminar suas inteligências,
  • clemente para fornecer-lhes o necessário à salvação,
  • rico para sacia-los,
  • belo para aprimora-los,
  • possuidor de bens para nutri-los e de roupas para vesti-los.
- Seu modo de viver diz que não confiam em mim; caso contrário, suas ações seriam santas e honestas.

- Enviei ao mundo o Verbo encarnado que destruiu a maldade do mundo, arrancou os espinheiros do pecado original e construiu um novo jardim.
- A natureza divina uniu-se ao homem ‘com todos os seus membros’, ou seja, com o poder do Pai, com a sabedoria do Filho e com a clemência do Espírito Santo. Todo o abismo da Trindade conformou-se, uniu-se à vossa humanidade.
- Depois dessa união, o amoroso Verbo pôs em prática uma outra quando, apaixonadamente, procurou a morte da cruz: estendeu-se sobre o madeiro.
- Depois, pelo Batismo, soprou sobre o homem morto, deu-lhe os sete dons do Espírito Santo e destruiu o pecado. Cristo “sopra” a fim de indicar que possui a vida e que expulsa para longe os sete vícios capitais.

- Concedo favores aos homens, porque sou rico, e posso dar ainda mais.
- Minha riqueza é infinita. Tudo quanto existe foi feito por mim, sem minha intervenção nada subsiste:
  • Se queres beleza, eu sou a beleza; se queres bondade, eu sou a bondade. Sou a sabedoria, o Deus benigno, piedoso, justo, misericordioso.          Sou liberal sem avareza e recompenso quem trabalha por minha glória. Sou feliz e faço feliz quem cumpre minha vontade.                                Sou providência que jamais falha ao cuidar dos servidores que em mim confiam, seja no que se refere à alma como ao corpo.  O Diálogo-Santa Catarina de Sena- página 312-316