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domingo, 26 de janeiro de 2014

Caridade na Verdade

 1. A caridade na verdade, que Jesus Cristo testemunhou com a sua vida terrena e sobretudo com a sua morte e ressurreição, é a força propulsora principal para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira.
- O amor «caritas» é uma força extraordinária, que impele as pessoas a comprometerem-se, com coragem e generosidade, no campo da justiça e da paz.
- É uma força que tem a sua origem em Deus, Amor eterno e Verdade absoluta. Cada um encontra o bem próprio, aderindo ao projeto que Deus tem para ele a fim de o realizar plenamente: com efeito, é em tal projeto que encontra a verdade sobre si mesmo e, aderindo a ela, torna-se livre (cf. Jo 8, 32).
- Por isso, defender a verdade, propô-la com humildade e convicção e testemunhá-la na vida são formas exigentes e imprescindíveis de caridade.
Esta, de facto, « rejubila com a verdade » (1 Cor 13, 6).

- Todos os homens sentem o impulso interior para amar de maneira autêntica: amor e verdade nunca desaparecem de todo neles, porque são a vocação colocada por Deus no coração e na mente de cada homem. Jesus Cristo purifica e liberta das nossas carências humanas a busca do amor e da verdade e desvenda-nos, em plenitude, a iniciativa de amor e o projeto de vida verdadeira que Deus preparou para nós.
- Em Cristo, a caridade na verdade torna-se o Rosto da sua Pessoa, uma vocação a nós dirigida para amarmos os nossos irmãos na verdade do seu projeto. De facto, Ele mesmo é a Verdade (cf. Jo 14, 6).

2. A caridade é a via mestra da doutrina social da Igreja.
- As diversas responsabilidades e compromissos por ela delineados derivam da caridade, que é — como ensinou Jesus — a síntese de toda a Lei (cf. Mt 22, 36-40). A caridade dá verdadeira substância à relação pessoal com Deus e com o próximo; é o princípio não só das micro relações estabelecidas entre amigos, na família, no pequeno grupo, mas também das macro relações como relacionamentos sociais, económicos, políticos.
- Para a Igreja — instruída pelo Evangelho —, a caridade é tudo porque, como ensina S. João (cf.1Jo 4, 8.16) e como recordei na minha primeira carta encíclica, «Deus é caridade»: da caridade de Deus tudo provém, por ela tudo toma forma, para ela tudo tende.
- A caridade é o dom maior que Deus concedeu aos homens; é sua promessa e nossa esperança.
- Nos âmbitos social, jurídico, cultural, político e económico, ou seja, nos contextos mais expostos a tal perigo, não é difícil ouvir declarar a sua irrelevância para interpretar e orientar as responsabilidades morais.

- Daqui a necessidade de conjugar a caridade com a verdade, não só na direção assinalada por S. Paulo da «veritas in caritate» (Ef 4, 15), mas também na direção inversa e complementar da «caritas in veritate». A verdade há de ser procurada, encontrada e expressa na « economia » da caridade, mas esta por sua vez há de ser compreendida, avaliada e praticada sob a luz da verdade. Deste modo teremos não apenas prestado um serviço à caridade, iluminada pela verdade, mas também contribuído para acreditar a verdade, mostrando o seu poder de autenticação e persuasão na vida social concreta. Fato este que se deve ter bem em conta hoje, num contexto social e cultural que relativiza a verdade, aparecendo muitas vezes negligente se não mesmo refratário à mesma.

3. Pela sua estreita ligação com a verdade, a caridade pode ser reconhecida como expressão autêntica de humanidade e como elemento de importância fundamental nas relações humanas, nomeadamente de natureza pública.
- Só na verdade é que a caridade refulge e pode ser autenticamente vivida.
- A verdade é luz que dá sentido e valor à caridade. Esta luz é simultaneamente a luz da razão e a da fé, através das quais a inteligência chega à verdade natural e sobrenatural da caridade: identifica o seu significado de doação, acolhimento e comunhão.

- Sem verdade, a caridade cai no sentimentalismo. O amor torna-se um invólucro vazio, que se pode encher arbitrariamente. É o risco fatal do amor numa cultura sem verdade; acaba prisioneiro das emoções e opiniões contingentes dos indivíduos, uma palavra abusada e adulterada chegando a significar o oposto do que é realmente. A verdade liberta a caridade dos estrangulamentos do emotivismo, que a despoja de conteúdos relacionais e sociais, e do fideísmo, que a priva de amplitude humana e universal.
- Na verdade, a caridade reflete a dimensão simultaneamente pessoal e pública da fé no Deus bíblico, que é conjuntamente «Agápe» e «Lógos»:
Caridade e Verdade, Amor e Palavra.

4. Porque repleta de verdade, a caridade pode ser compreendida pelo homem na sua riqueza de valores, partilhada e comunicada. Com efeito, a verdade é «lógos» que cria «diá-logos» e, consequentemente, comunicação e comunhão. A verdade, fazendo sair os homens das opiniões e sensações subjetivas, permite-lhes ultrapassar determinações culturais e históricas para se encontrarem na avaliação do valor e substância das coisas.
- A verdade abre e une as inteligências no logos do amor: tal é o anúncio e o testemunho cristão da caridade.
- No atual contexto social e cultural, em que aparece generalizada a tendência de relativizar a verdade, viver a caridade na verdade leva a compreender que a adesão aos valores do cristianismo é um elemento útil e mesmo indispensável para a construção duma boa sociedade e dum verdadeiro desenvolvimento humano integral.

- Um cristianismo de caridade sem verdade pode ser facilmente confundido com uma reserva de bons sentimentos, úteis para a convivência social mas marginais. Deste modo, deixaria de haver verdadeira e propriamente lugar para Deus no mundo.
- Sem a verdade, a caridade acaba confinada num âmbito restrito e carecido de relações; fica excluída dos projetos e processos de construção dum desenvolvimento humano de alcance universal, no diálogo entre o saber e a realização prática.

5. A caridade é amor recebido e dado; é « graça » (cháris).
- A sua nascente é o amor do Pai pelo Filho no Espírito Santo. É amor que, pelo Filho, desce sobre nós. É amor criador, pelo qual existimos; amor redentor, pelo qual somos recriados. Amor revelado e vivido por Cristo (cf.Jo 13, 1), é «derramado em nossos corações pelo Espírito Santo» (Rm5, 5). Destinatários do amor de Deus, os homens são constituídos sujeitos de caridade, chamados a fazerem-se eles mesmos instrumentos da graça, para difundir a caridade de Deus e tecer redes de caridade.

- A esta dinâmica de caridade recebida e dada, propõe-se dar resposta a doutrina social da Igreja. Tal doutrina é, proclamação da verdade do amor de Cristo na sociedade; é serviço da caridade, mas na verdade. É ao mesmo tempo verdade da fé e da razão, na distinção e, conjuntamente, sinergia destes dois âmbitos cognitivos. O desenvolvimento, o bem-estar social, uma solução adequada dos graves problemas socioeconômicos que afligem a humanidade precisam desta verdade. Mais ainda, necessitam que tal verdade seja amada e testemunhada. Sem verdade, sem confiança e amor pelo que é verdadeiro, não há consciência e responsabilidade social, e a atividade social acaba à mercê de interesses privados e lógicas de poder, com efeitos desagregadores na sociedade, sobretudo numa sociedade em vias de globalização que atravessa momentos difíceis como os atuais.

Carta Encíclica “Caritas in Veritate” – Papa Bento XVI

domingo, 15 de dezembro de 2013

A vida do homem: conhecer e amar a Deus

"PAI,... a vida eterna é esta: que eles te conheçam a ti, o Deus único verdadeiro, e aquele que enviaste, Jesus Cristo" (Jo 17,3).

"Deus, nosso Salvador... quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade" (1 Tm 2,3-4).

"Não há, debaixo do céu, outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos" (At 4,12), afora o nome de JESUS.

A vida do homem: conhecer e amar a Deus
- Deus, infinitamente Perfeito e Bem-aventurado em si mesmo, em um desígnio de pura bondade, criou livremente o homem para fazê-lo participar de sua vida bem-aventurada.
- Eis por que, desde sempre e em todo lugar, está perto do homem. Chama-o e ajuda-o a procurá-lo, a conhecê-lo e a amá-lo com todas as suas forças. Convoca todos os homens, dispersos pelo pecado, para a unidade de sua família, a Igreja.
- Faz isto por meio do Filho, que enviou como Redentor e Salvador quando os tempos se cumpriram.
- Nele e por Ele, chama os homens a se tornarem, no Espírito Santo, seus filhos adotivos, e portanto os herdeiros de sua vida bem-aventurada.

- A fim de que este chamado ressoe pela terra inteira, Cristo enviou os apóstolos que escolhera, dando-lhes o mandato de anunciar o Evangelho:
"Ide, fazei que todas as nações se tornem discípulos,
 batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e
ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei.
E eis que eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos" (Mt 28,19-20).
- Fortalecidos com esta missão, os apóstolos:
"saíram a pregar por toda parte, agindo com eles o Senhor, e confirmando a Palavra por meio dos sinais que a acompanhavam" (Mc 16,20).

- Os que com a ajuda de Deus acolheram o chamado de Cristo e lhe responderam livremente foram por sua vez impulsionados pelo amor de Cristo a anunciar por todas as partes do mundo a Boa Notícia.
- Este tesouro recebido dos apóstolos foi guardado fielmente por seus sucessores.
- Todos os fiéis de Cristo são chamados a transmiti-lo de geração em geração:
·         anunciando a fé,
·         vivendo-a na partilha fraterna,
·         celebrando-a na liturgia e
·         na oração.

Transmitir a fé - a catequese
- Bem cedo passou-se a chamar de catequese o conjunto de esforços empreendidos na Igreja para fazer discípulos, para ajudar os homens a crerem que Jesus é o Filho de Deus, a fim de que, por meio da fé, tenham a vida em nome dele, para educá-los e instruí-los nesta vida, e assim construir o Corpo de Cristo.

"A catequese é uma educação da fé das crianças, dos jovens e dos adultos, a qual compreende especialmente um ensino da doutrina cristã, dado em geral de maneira orgânica e sistemática, com o fim de os iniciar na plenitude da vida cristã."

- Sem confundir-se com eles, a catequese se articula em torno de determinado número de elementos da missão pastoral da Igreja que têm um aspecto catequético e que preparam a catequese ou dela derivam:
  • primeiro anúncio do Evangelho ou pregação missionária para suscitar a fé;
  • busca das razões de crer;
  • experiência de vida cristã;
  • celebração dos sacramentos;
  • integração na comunidade eclesial;
  • testemunho apostólico e missionário.
"A catequese anda intimamente ligada com toda a vida da Igreja. Não é somente a extensão geográfica e o aumento numérico, mas também e mais ainda o crescimento interior da Igreja, sua correspondência ao desígnio de Deus que dependem da catequese mesma."

- Os períodos de renovação da Igreja são também tempos fortes da catequese. Eis por que, na grande época dos Padres da Igreja, vemos Santos Bispos dedicarem uma parte importante de seu ministério à catequese. É a época de São Cirilo de Jerusalém e de São João Crisóstomo, de Santo Ambrósio e de Santo Agostinho, e de muitos outros Padres cujas obras catequéticas permanecem como modelos.

Fazer-se tudo para todos
- Aquele que ensina deve "fazer-se tudo para todos" (1 Cor 9,22), a fim de conquistar todos para Jesus Cristo...
- Particularmente, não imagine ele que lhe é confiado um único tipo de almas, e que consequentemente lhe é permitido ensinar e formar de modo igual todos os fiéis à verdadeira piedade, com um só e mesmo método, sempre igual!
- Saiba ele bem que uns são em Jesus Cristo como que criancinhas recém-nascidas, outros, como que adolescentes, e finalmente alguns estão como que na posse de todas as suas forças...
- Os que são chamados ao ministério da pregação devem, na transmissão dos mistérios da fé e das regras dos costumes, adaptar suas palavras ao espírito e à inteligência de seus ouvintes.

Acima de tudo a caridade
- Toda a finalidade da doutrina e do ensinamento deve ser posta no amor que não acaba.
- Com efeito, pode-se facilmente expor o que é preciso crer, esperar ou fazer; mas sobretudo é preciso fazer sempre com que apareça o Amor de Nosso Senhor, para que cada um compreenda que cada ato de virtude perfeitamente cristão não tem outra origem senão o Amor, e outro fim senão o Amor.

CIC-Catecismo da Igreja Católica  §1-25

domingo, 8 de dezembro de 2013

Virtudes Divinas

Virtudes teologais
- As virtudes humanas se fundam nas virtudes teologais que adaptam as faculdades do homem para que possa participar da natureza divina.
- Pois as virtudes teologais se referem diretamente a Deus. Dispõem os cristãos a viver em relação com a Santíssima Trindade e têm a Deus Uno e Trino por origem, motivo e objeto.
- As virtudes teologais fundamentam, animam e caracterizam o agir moral do cristão. Informam e vivificam todas as virtudes morais.
- São infundidas por Deus na alma dos fiéis para torná-los capazes de agir como seus filhos e merecer a vida eterna.
- São o penhor da presença e da ação do Espírito Santo nas faculdades do ser humano. Há três virtudes teologais: a fé, a esperança e a caridade.

- A fé é a virtude teologal pela qual cremos em Deus e em tudo o que nos disse e revelou, e que a Santa Igreja nos propõe para crer, porque Ele é a própria verdade.
- Pela fé, "o homem livremente se entrega todo a Deus. Por isso o fiel procura conhecer e fazer a vontade de Deus.
"O justo viverá da fé" (Rm 1,17).
A fé viva "age pela caridade" (Gl 5,6).
- O dom da fé permanece naquele que não pecou contra ela.
- Mas "é morta a fé sem obras" (Tg 2,26): privada da esperança e do amor, a fé não une plenamente o fiel a Cristo e não faz dele um membro vivo de seu Corpo.
- O discípulo de Cristo não deve apenas guardar a fé e nela viver, mas também professá-la, testemunhá-la com firmeza e difundi-la:
"Todos devem estar prontos a confessar Cristo perante os homens e segui-lo no caminho da Cruz, entre perseguições que nunca faltam à Igreja.”
- O serviço e o testemunho da fé são requisitos da salvação:
"Todo aquele que se declarar por mim diante dos homens também eu me declararei por ele diante de meu Pai que está nos céus.
Aquele, porém, que me renegar diante dos homens também o renegarei diante de meu Pai que está nos céus" (Mt 10,32-33).

Esperança
- A esperança é a virtude teologal pela qual desejamos como nossa felicidade o Reino dos Céus e a Vida Eterna, pondo nossa confiança nas promessas de Cristo e apoiando-nos não em nossas forças, mas no socorro da graça do Espírito Santo.
"Continuemos a afirmar nossa esperança,
porque é fiel quem fez a promessa" (Hb 10,23).
"Este Espírito que ele ricamente derramou sobre nós, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador, a fim de que fôssemos justificados por sua graça e nos tornássemos herdeiros da esperança da vida eterna" (Tt 3,6-7).
- A virtude da esperança responde à aspiração de felicidade colocada por Deus no coração de todo homem;
  • assume as esperanças que inspiram as atividades dos homens;
  •  purifica-as, para ordená-las ao Reino dos Céus;
  • protege contra o desânimo;
  • dá alento em todo esmorecimento;
  • dilata o coração na expectativa da bem-aventurança eterna.
- O impulso da esperança preserva do egoísmo e conduz à felicidade da caridade.
- A esperança cristã retoma e realiza a esperança do povo eleito, que tem sua origem e modelo na esperança de Abraão, cumulada em Isaac, das promessas de Deus, e purificada pela prova do sacrifício.
"Ele, contra toda a esperança,
acreditou na esperança de tornar-se pai de muitos povos" (Rm 4,18).
- A esperança cristã se manifesta desde o inicio da pregação de Jesus no anúncio das bem-aventuranças. As bem-aventuranças elevam nossa esperança ao céu, como para a nova Terra prometida; traçam o caminho por meio das provação reservadas aos discípulos de Jesus.
- Mas, pelos méritos de Jesus Cristo e de sua Paixão, Deus nos guarda na "esperança que não decepciona" (Rm 5,5).
- A esperança é a "âncora da alma” segura e firme, "penetrando... onde Jesus entrou por nós, como precursor" (Hb 6,19-20).
- Também é uma arma que nos protege no combate da salvação:
 "Revestidos da couraça da fé e da caridade e do capacete da esperança da salvação" (l Ts 5,8)
- Ela nos traz alegria mesmo na provação:
"alegrando-vos na esperança, perseverando na tribulação" (Rm 12,12).
- Ela se exprime e se alimenta na oração, especialmente no Pai-Nosso resumo de tudo o que a esperança nos faz desejar.
- Podemos esperar, pois, a glória do céu prometida por Deus aos que o amam e fazem sua vontade.
- Em qualquer circunstância, cada qual deve esperar, com a graça de Deus, "perseverar até o fim" e alcançar a alegria do céu como recompensa eterna de Deus pelas boas obras praticadas com a graça de Cristo.
- Na esperança, a Igreja pede que "todos ó homens sejam salvos" (1Tm 2,4). Ela aspira a estar unida a Cristo, seu Esposo, na glória do céu.
  • Espera, ó minha alma, espera. Ignoras o dia e a hora. Vigia cuidadosamente, tudo passa com rapidez, ainda que tua impaciência torne duvidoso o que é certo, e longo um tempo bem curto. Considera que, quanto mais pelejares, mais provarás o amor que tens a teu Deus e mais te alegrarás um dia com teu Bem-Amado numa felicidade e num êxtase que não poderão jamais terminar.
(Santa Tereza de Jesus)

Caridade
- A caridade é a virtude teologal pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas, por si mesmo, e a nosso próximo como a nós mesmos, por amor de Deus.
- Jesus fez da caridade o novo mandamento. Amando os seus "até o fim" (Jo 13,1), manifesta o amor do Pai que Ele recebe.
- Amando-se uns aos outros, os discípulos imitam o amor de Jesus que eles também recebem.
- Por isso diz Jesus:
"Assim como o Pai me amou, também eu vos amei.
Permanecei em meu amor" (Jo 15,9).
E ainda:
"Este é o meu preceito:
Amai-vos uns aos outros como eu vos amei" (Jo 15,12).
- Fruto do Espírito e da plenitude da lei, a caridade guarda os mandamentos de Deus e de seu Cristo:
"Permanecei em meu amor.
Se observais os meus mandamentos, permanecereis no meu amor" (Jo 15,9-10).
- Cristo morreu por nosso amor quando éramos ainda "inimigos" (Rm 5,10). O Senhor exige que amemos, como Ele, mesmo os nossos inimigos, que nos tornemos o próximo do mais afastado, que amemos como Ele as crianças e os pobres.
- O apóstolo S. Paulo traçou um quadro incomparável da caridade:
"A caridade é paciente, a caridade é prestativa, não é invejosa, não se ostenta, não se incha de orgulho. Nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta" (l Cor 13,4-7).
- Diz ainda o apóstolo:
"Se não tivesse a caridade, nada seria...".
- E tudo o que é privilégio, serviço e mesmo virtude...
"se não tivesse a caridade, isso nada me adiantaria".
- A caridade superior a todas as virtudes. E a primeira das virtudes teologais:
"Permanecem fé, esperança, caridade, estas três coisas.
A maior delas, porém, é a caridade" (1 Cor 13,13).
- O exercício de todas as virtudes é animado e inspirado pela caridade, que é o "vinculo da perfeição" (Cl 3,14); é a forma das virtudes, articulando-as e ordenando-as entre si; é fonte e termo de sua prática cristã.
- A caridade assegura purifica nossa capacidade humana de amar, elevando-a à feição sobrenatural do amor divino.
- A prática da vida moral, animada pela caridade, dá ao cristão a liberdade espiritual dos filhos de Deus. Já não está diante de Deus como escravo em temor servil, nem como mercenário à espera do pagamento, mas como um filho que responde ao amor daquele "que nos amou primeiro" (1 Jo 4,19):
  • Ou nos afastamos do mal por medo do castigo, estando assim na posição do escravo; ou buscamos o atrativo da recompensa, assemelhando-nos aos mercenários; ou é pelo bem em si mesmo e por amor de quem manda que nós obedecemos... e estaremos então na posição de filhos. (São Basilio)
- A caridade tem como frutos a alegria, a paz e a misericórdia exige a beneficência e a correção fraterna; é benevolência; suscita a reciprocidade; é desinteressada e liberal; é amizade e comunhão:
  • A finalidade de todas as nossas obras é o amor. Este é o fim, é para alcançá-lo que corremos, é para ele que corremos; uma vez chegados, é nele que repousaremos.

CIC-Catecismo da Igreja Católica §1812-1829

Virtudes humanas

Virtudes
"Ocupai-vos com tudo o que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, tudo o que há de louvável, honroso, virtuoso ou de qualquer modo mereça louvor" (Fl 4,8).
- A virtude é uma disposição habitual e firme para fazer o bem.
- Permite a pessoa não só praticar atos bons, mas dar o melhor de si.
- Com todas as suas forças sensíveis e espirituais, a pessoa virtuosa tende ao bem, procura-o e escolhe-o na prática.
"O objetivo da vida virtuosa é tornar-se semelhante a Deus."

Virtudes humanas
- As virtudes humanas são atitudes firmes, disposições estáveis, perfeições habituais da inteligência e da vontade que regulam nossos atos, ordenando nossas paixões e guiando-nos segundo a razão e a fé.
- Propiciam, assim, facilidade, domínio e alegria para levar uma vida moralmente boa. Pessoa virtuosa é aquela que livremente pratica o bem.
- As virtudes morais são adquiridas humanamente.
- São os frutos e os germes de atos moralmente bons; dispõem todas as forças do ser humano para entrar em comunhão com o amor divino.

Distinção das virtudes cardeais
- Quatro virtudes têm um papel de "dobradiça" (que, em latim, se diz "cardo, cardinis").
- Por esta razão são chamadas "cardeais": todas as outras se agrupam em torno delas. São a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança.
"Ama-se a retidão? As virtudes são seus frutos;
ela ensina a temperança e a prudência a justiça e a fortaleza" (Sb 8,7).
- Estas virtudes são louvadas em numerosas passagens da Escritura sob outros nomes.

- A prudência é a virtude que dispõe a razão prática a discernir, em qualquer circunstância, nosso verdadeiro bem e a escolher os meios adequados para realizá-lo.
"O homem sagaz discerne os seus passos" (Pr 14,15).
"Sede prudentes e sóbrios para entregardes às orações" (1 Pd 4,7).
- A prudência é a "regra certa da ação", escreve Sto. Tomás citando Aristóteles. Não se confunde com a timidez ou o medo, nem com a duplicidade ou dissimulação.
- É chamada "cocheiro", isto é "portadora das virtudes", porque, conduz as outras virtudes, indicando-lhes a regra e a medida.
- É a prudência que guia imediatamente o juízo da consciência.
- O homem prudente decide e ordena sua conduta seguindo este juízo.
- Graças a esta virtude, aplicamos sem erro os princípios morais aos casos particulares e superamos as dúvidas sobre o bem a praticar e o mal a evitar.

- A justiça é a virtude moral que consiste na vontade constante e firme de dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido.
- A justiça para com Deus chama-se "virtude de religião".
- Para com os homens, ela nos dispõe a respeitar os direitos de cada um e a estabelecer nas relações humanas a harmonia que promove a equidade em prol das pessoas e do bem comum.
- O homem justo, muitas vezes mencionado nas Escrituras, distingue-se pela correção habitual de seus pensamentos e pela retidão de sua conduta para com o próximo.
"Não favoreças o pobre, nem prestigies o poderoso.
Julga o próximo conforme a justiça" (Lv 19,15).
"Senhores, dai aos vossos servos o justo e eqüitativo,
sabendo que vós tendes um Senhor no céu" (Cl 4,1).

- A fortaleza é a virtude moral que dá segurança nas dificuldades, firmeza e constância na procura do bem.
- Ela firma a resolução de resistir as tentações e superar os obstáculos na vida moral.
- A virtude da fortaleza nos torna capazes de vencer o medo, inclusive da morte, de suportar a provação e as perseguições.
- Dispõe a pessoa a aceitar até a renúncia e o sacrifício de sua vida para defender uma causa justa.
"Minha força e meu canto é o Senhor" (Sl 118,14).
"No mundo tereis tribulações, mas tende coragem:
 eu venci o mundo" (Jo 16,33).

- A temperança é a virtude moral que modera a atração pelos prazeres e procura o equilíbrio no uso dos bens criados.
- Assegura o domínio da vontade sobre os instintos e mantém os desejos dentro dos limites da honestidade.
- A pessoa temperante orienta para o bem seus apetites sensíveis, guarda uma santa discrição e "não se deixa levar a seguir as paixões do coração".
- A temperança é muitas vezes louvada no Antigo Testamento:
"Não te deixes levar por tuas paixões e refreia os teus desejos"
(Eclo 18,30).
- No Novo Testamento, é chamada de "moderação" ou "sobriedade".
Devemos "viver com moderação, justiça e piedade neste mundo" (Tt 2,12).
- Viver bem não é outra coisa senão amar a Deus de todo o coração, de toda a alma e em toda forma de agir.
- Dedicar-lhe um amor integral (pela temperança) que nenhum infortúnio poderá abalar (o que depende da fortaleza), que obedece exclusivamente a Ele (e nisto consiste a justiça), que vela para discernir todas as coisas com receio de deixar-se surpreender pelo ardil e pela mentira (e isto é a prudência).

As virtudes e a Graça
- As virtudes humanas adquiridas pela educação, por atos deliberados e por uma perseverança sempre retomada com esforço são purificadas e elevadas pela graça divina.
- Com o auxílio de Deus, forjam o caráter e facilitam a prática do bem.
O homem virtuoso sente-se feliz em praticá-las.
- Não é fácil para o homem ferido pelo pecado manter o equilíbrio moral.
- O dom da salvação, trazida por Cristo, nos concede a graça necessária para perseverar na conquista das virtudes.
- Cada um deve sempre pedir esta graça de luz e de fortaleza, recorrer aos sacramentos, cooperar com o Espírito Santo, seguir seus apelos de amar o bem e evitar o mal.

CIC-Catecismo da Igreja Católica §1803-1811

sábado, 9 de novembro de 2013

Cristo, médico

A enfermidade na vida humana
- A enfermidade e o sofrimento sempre estiveram entre problemas mais graves da vida humana. Na doença, o homem experimenta sua impotência, seus limites e sua finitude. Toda doença pode fazer-nos entrever a morte.
- A enfermidade pode levar a pessoa à angústia, a fechar-se sobre si mesma e, às vezes, ao desespero e à revolta contra Deus. Mas também pode tomar a pessoa mais madura, ajudá-la a discernir em sua vida o que não é essencial, para voltar-se àquilo que é essencial.
Não raro, a doença provoca uma busca de Deus, um retomo a Ele.

O enfermo diante de Deus
- O homem do Antigo Testamento vive a doença diante de Deus. E diante de Deus que ele faz sua queixa sobre a enfermidade, e é dele, o Senhor da vida e da morte, que implora a cura.
- A enfermidade se torna caminho de conversão e o perdão de Deus de início à cura.
- Israel chega à conclusão de que a doença, de uma forma misteriosa, está ligada ao pecado e ao mal e que a fidelidade a Deus, segundo sua Lei, dá a vida: "Porque eu sou Iahweh, aquele que te restaura" (Ex 15,26).
- O profeta entrevê que o sofrimento também pode ter um sentido redentor para os pecados dos outros (Cf Is 53,11).
- Finalmente, Isaías anuncia que Deus fará chegar um tempo para Sião em que toda falta será perdoada e toda doença ser curada (Cf Is 33,24).

Cristo, Médico
- A compaixão de Cristo para com os doentes e suas numerosas curas de enfermos de todo tipo são um sinal evidente de que "Deus visitou o seu povo” e de que o Reino de Deus está bem próximo.
- Jesus não só tem poder de curar, mas também de perdoar os pecados: ele veio curar o homem inteiro, alma e corpo; é o médico de que necessitam os doentes.
- Sua compaixão para com todos aqueles que sofrem é tão grande que ele se identifica com eles: "Estive doente e me visitastes" (Mt 25,36).
- Seu amor de predileção pelos enfermos não cessou, ao longo dos séculos, de despertar a atenção toda especial dos cristãos para com todos os que sofrem no corpo e na alma. Esse amor está na origem dos incansáveis esforços para aliviá-los.
- Muitas vezes Jesus pede aos enfermos que creiam. Serve-se de sinais para curar: saliva e imposição das mãos, lama e ablução.
- Os doentes procuram tocá-lo, "porque dele saía uma força que a todos curava" (Lc 6,19).
Também nos sacramentos Cristo continua a nos "tocar" para nos curar.

- Comovido com tantos sofrimentos, Cristo não apenas se deixa tocar pelos doentes, mas assume suas misérias: "Ele levou nossas enfermidades e carregou nossas doenças".
- Não curou todos os enfermos. Suas curas eram sinais da vinda do Reino de Deus. Anunciavam uma cura mais radical: a vitória sobre o pecado e a morte por sua Páscoa.
- Na cruz, Cristo tomou sobre si todo o peso do mal e tirou o "pecado do mundo" (Jo 1,29). A enfermidade não é mais do que uma consequência do pecado.
- Por sua paixão e morte na cruz, Cristo deu um novo sentido ao sofrimento, que doravante pode configurar-nos com Ele e unir-nos à sua paixão redentora.

“Curai os enfermos...”
- Cristo convida seus discípulos a segui-lo, tomando cada um sua cruz.
- Seguindo-o, adquirem uma nova visão da doença e dos doentes. Jesus os associa á sua vida pobre e de servidor. Faz com que participem de seu ministério de compaixão e de cura:                                          "Partindo, eles pregavam que todos se arrependessem. E expulsavam muitos demônios e curavam muitos enfermos, ungindo-os com óleo" (Mc 6,12-13).
- O Senhor ressuscitado renova este envio: "Em meu nome... eles imporão as mãos sobre os enfermos e estes ficarão curados". (Mc 16,17-18) e o confirma por meio dos sinais realizados pela Igreja ao invocar seu nome.
- Esses sinais manifestam de um modo especial que Jesus é verdadeiramente "Deus que salva".
- O Espírito Santo dá a algumas pessoas um carisma especial de cura para manifestar a força da graça do ressuscitado. Todavia, mesmo as orações mais intensas não conseguem obter a cura de todas as doenças. Por isso, São Paulo deve aprender do Senhor que "basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que minha força manifesta todo o seu poder" (2Cor 12,9),
e que os sofrimentos que temos de suportar podem ter como sentido "completar na minha carne o que falta às tribulações de Cristo por seu corpo, que é a Igreja" (Cl 1,24).

- "Curai os enfermos!" (Mt 10,8). A Igreja recebeu esta missão do Senhor e esforça-se por cumpri-la tanto pelos cuidados aos doentes como pela oração de intercessão com que os acompanha.
- Ela crê na presença vivificante de Cristo, médico da alma e do corpo. Esta presença age particularmente por intermédio dos sacramentos e, de modo especial, pela Eucaristia, pão que dá vida eterna a cujo liame com a saúde corporal São Paulo se refere.
- Entretanto, a Igreja apostólica conhece um rito próprio em favor dos doentes, atestado por São Tiago: "Alguém dentre vós está doente? Mande chamar os presbíteros da Igreja, para que orem sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor. A oração da fé salvará o doente e o Senhor o aliviará; e, se tiver cometido pecados, estes lhe serão perdoados" (Tg 5,14-l5)
- A Tradição reconheceu neste rito um dos sete sacramentos da Igreja, a Unção dos enfermos.
CIC-Catecismo da Igreja Católica 1500-1510
Assim como Marta e Maria
- Marta e Maria, rogaram a Jesus por seu irmão Lázaro:
“Senhor, aquele que amas está doente’ A esta noticia, Jesus disse:
‘Essa doença não é mortal, mas para a glória de Deus, para que, por ela, seja glorificado o Filho de Deus”  João 11,1-43

- Rezemos nós também pelos doentes:
“Senhor, aquele que amas, o(a) ......................, está doente”
- Reze interiormente esta jaculatória durante todo o dia e a noite.

- Por pior que esteja a situação, insista orando, pois Jesus na agonia no Monte das Oliveiras além de não desistir de orar, “orava com mais insistência ainda”:

“...cheio de angústia, orava com mais insistência ainda...” Lucas 22,44