sábado, 12 de abril de 2014

Boa nova da Família

A boa nova da família
§114. Proclamamos com alegria o valor da família na América Latina e no Caribe. O Papa Bento XVI afirma que a família, “patrimônio da humanidade, constitui um dos tesouros mais importantes dos povos latino-americanos e caribenhos. Ela tem sido e é escola da fé, palestra de valores humanos e cívicos, lar em que a vida humana nasce e se acolhe generosa e responsavelmente...
- A família é insubstituível para a serenidade pessoal e para a educação de seus filhos”.

§115. Agradecemos a Cristo que nos revela que “Deus é amor e vive em si mesmo um mistério pessoal de amor” e, optando por viver em família em meio a nós, a eleva à dignidade de ‘Igreja Doméstica’.

§116. Bendizemos a Deus por haver criado o ser humano, homem e mulher, ainda que hoje se queira confundir esta verdade:
“Criou Deus os seres humanos à sua imagem; à imagem de Deus os criou, homem e mulher os criou” (Gn 1,27). Pertence à natureza humana que o homem e a mulher busquem um no outro sua reciprocidade e complementaridade.

§117. O fato de sermos amados por Deus enche-nos de alegria.
- O amor humano encontra sua plenitude quando participa do amor divino, do amor de Jesus que se entrega solidariamente por nós em seu amor pleno até o fim (cf. Jo 13,1; 15,9).
- O amor conjugal é a doação recíproca entre um homem e uma mulher, os esposos: é fiel e exclusivo até à morte e fecundo, aberto à vida e à educação dos filhos, assemelhando-se ao amor fecundo da Santíssima Trindade.
- O amor conjugal é assumido no Sacramento do Matrimônio para significar a união de Cristo com sua Igreja. Por isso, na graça de Jesus Cristo encontra sua purificação, alimento e plenitude (Ef 5,23-33).

§118. No seio de uma família, a pessoa descobre os motivos e o caminho para pertencer à família de Deus. Dela recebemos a vida que é a primeira experiência do amor e da fé. O grande tesouro da educação dos filhos na fé consiste na experiência de uma vida familiar que recebe a fé, a conserva, a celebra, a transmite e dá testemunho dela. Os pais devem tomar nova consciência de sua alegre e irrenunciável responsabilidade na formação integral dos filhos.

§119. Deus ama nossas famílias, apesar de tantas feridas e divisões. - A presença invocada de Cristo através da oração em família nos ajuda a superar os problemas, a curar as feridas e abre caminhos de esperança.
- Muitos vazios de lar podem ser atenuados através de serviços prestados pela comunidade eclesial, família de famílias.

A boa nova da atividade humana
O trabalho
§120. Louvamos a Deus porque na beleza da criação, que é obra de suas mãos, resplandece o sentido do trabalho como participação na sua tarefa criadora e como serviço aos irmãos e irmãs. Jesus, o carpinteiro (cf. Mc 6,3), dignificou o trabalho e o trabalhador e recorda que o trabalho não é mero apêndice da vida, mas que “constitui uma dimensão fundamental da existência do homem na terra”, pela qual o homem e a mulher se realizam como seres humanos. O trabalho garante a dignidade e a liberdade do homem, e é provavelmente “a chave essencial de toda ‘a questão social’”.

§121. Damos graças a Deus porque sua palavra nos ensina que, apesar do cansaço que muitas vezes acompanha o trabalho, o cristão sabe que este, unido à oração, serve não só para o progresso terreno, mas também para a santificação pessoal e a construção do Reino de Deus. O desemprego, a injusta remuneração pelo trabalho e o viver sem querer trabalhar são contrários ao desígnio de Deus. O discípulo e o missionário, respondendo a esse desígnio, promovem a dignidade do trabalhador e do trabalho, o justo reconhecimento de seus direitos e de seus deveres, desenvolvem a cultura do trabalho e denunciam toda injustiça.
- A salvaguarda do domingo, como dia de descanso, de família e de culto ao Senhor, garante o equilíbrio entre trabalho e repouso.
- Cabe à comunidade criar estruturas que ofereçam trabalho às pessoas deficientes, segundo suas possibilidades.

§122. Louvamos a Deus pelos talentos, estudo e decisão de homens e mulheres para promover iniciativas e projetos geradores de trabalho e produção, que elevam a condição humana e o bem-estar da sociedade. A atividade empresarial é boa e necessária quando respeita a dignidade do trabalhador, o cuidado do meio-ambiente e se orienta para o bem comum.
- Perverte-se quando, buscando só o lucro, atenta contra os direitos dos trabalhadores e a justiça.

A ciência e a tecnologia
§123. Louvamos a Deus por aqueles que cultivam as ciências e a tecnologia, oferecendo imensa quantidade de bens e valores culturais que têm contribuído, entre outras coisas, para prolongar a expectativa de vida e sua qualidade. No entanto, a ciência e a tecnologia não têm as respostas às grandes interrogações da vida humana. A resposta última às questões fundamentais do homem só pode vir de uma razão e ética integrais, iluminadas pela revelação de Deus. Quando a verdade, o bem e a beleza se
separam; quando a pessoa humana e suas exigências fundamentais não constituem o critério ético, a ciência e a tecnologia voltam-se contra o homem que as criou.

§124. Hoje em dia as fronteiras traçadas entre as ciências se desvanecem. Com este modo de compreender o diálogo, sugere-se a ideia de que nenhum conhecimento é completamente autônomo. Esta situação abre um terreno de oportunidades à teologia para interagir com as ciências sociais.

A boa nova do destino universal dos bens e da ecologia
§125. Junto com os povos originários da América, louvamos ao Senhor que criou o universo como espaço para a vida e a convivência de todos os seus filhos e filhas e no-los deixou como sinal de sua bondade e de sua beleza. A criação também é manifestação do amor providente de Deus; foi-nos entregue para que cuidemos dela e a transformemos em fonte de vida digna para todos. Ainda que hoje se tenha generalizado maior valorização da natureza, percebemos claramente de quantas maneiras o homem ameaça e inclusive destrói seu ‘hábitat’. “Nossa irmã a mãe terra” é nossa casa comum e o lugar da aliança de Deus com os seres humanos e com toda a criação. Desatender as mútuas relações e o equilíbrio que o próprio Deus estabeleceu entre as realidades criadas, é uma ofensa ao Criador, um atentado contra a biodiversidade e, definitivamente, contra a vida. O discípulo missionário, a quem Deus confiou a criação, deve contemplá-la, cuidar dela e utilizá-la, respeitando sempre a ordem dada pelo Criador.

§126. A melhor forma de respeitar a natureza é promover uma ecologia humana aberta à transcendência que, respeitando a pessoa e a família, os ambientes e as cidades, segue a indicação paulina de recapitular as coisas em Cristo e de louvar com Ele ao Pai (cf. 1 Cor 3,21-23). O Senhor entregou o mundo para todos, para os das gerações presentes e futuras. O destino universal dos bens exige a solidariedade com as gerações presentes e as futuras.
- Visto que os recursos são cada vez mais limitados, seu uso deve estar regulado segundo um princípio de justiça distributiva, respeitando o desenvolvimento sustentável.

O Continente da esperança e do amor
§127. Como discípulos e missionários agradecemos a Deus porque a maioria dos latino-americanos e caribenhos estão batizados.
- A providência de Deus nos confiou o precioso patrimônio de pertencer à Igreja pelo dom do batismo que nos tem feito membros do Corpo de Cristo, povo de Deus peregrino em terras americanas há mais de quinhentos anos.
- Alenta nossa esperança a multidão de nossas crianças, os ideais de nossos jovens e o heroísmo de muitas de nossas famílias que, apesar das crescentes
dificuldades, seguem sendo fiéis ao amor. Agradecemos a Deus a religiosidade de nossos povos que resplandece na devoção ao Cristo sofredor e à sua Mãe bendita, na veneração aos Santos com suas festas patronais, no amor ao Papa e aos demais pastores, no amor à Igreja universal como grande família de Deus que nunca pode nem deve deixar seus próprios filhos a sós ou na miséria.

§128. Reconhecemos o dom da vitalidade da Igreja que peregrina na América Latina e no Caribe, sua opção pelos pobres, suas paróquias, suas comunidades, suas associações, seus movimentos eclesiais, novas comunidades e seus múltiplos serviços sociais e educativos. Louvamos ao Senhor por ter feito deste continente um espaço de comunhão e comunicação de povos e culturas indígenas. Também agradecemos o protagonismo que vão adquirindo setores que foram deslocados: mulheres, indígenas, afro-americanos, homens do campo e habitantes de áreas marginais das grandes cidades. Toda a vida de nossos povos fundada em Cristo e redimida por Ele, pode olhar para o futuro com esperança e alegria, acolhendo o chamado do Papa Bento XVI:
“Só da Eucaristia brotará a civilização do amor que transformará a América latina e o Caribe para que, além de ser o Continente da esperança, seja também o Continente do amor!”

Documento de Aparecida-2007